quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

 

Coisas do Arco da Velha

 

Não posso resistir a mofar de algumas misérias humanas. Ainda que saiba poder ser mal recebido a rir, a verdade é que chorar não me aparenta acrescentar melhor provento.

Ouvi falar de uma ideia, pequena na sensatez, mas grande na intencionalidade. O desígnio versava sobre sermos nós o próprio presépio e sobre o “menino jesus nascer dentro de nós”. Coisas deste festival de festas, luzes e saturnálias

Confesso que nem a bondade do espírito natalício me assossegou, nas entranhas, as estranhas contradições destes propósitos. Lá sermos presépio, até pode ser verdade e aceitável. Uns mais outros menos conseguimos albergar, simultaneamente, vários animais dentro de nós, com trivial e eclética bestealidade. Por mim, sem dificuldades, faço de burro, com algum tremor em defraudar o lindo animal. Já quanto ao “menino jesus” nascer dentro de nós… Bem! Trata-se da tendente miserável capacidade humana, no seu melhor, para fazer deuses. Vejamos, o quão poderosos somos, que até deuses somos capazes de manufaturar.

Mas como se não bastasse, ainda esta ideia me não tinha assentado nas vísceras, já outra se levantava em forma de notícia (nada nova no caso), sobre um caso de exorcismo ou abuso ou violação diabólica ou, quiçá, onírica obnubilante opera. É a mesma miséria humana, mas agora de trevas travestida. A incomensurável habilidade para cozinhar demónios, diabinhos, mefistofélicos e levados da breca, alimentada a pecados sexuais ou a fomes impiedosas dele, miserbiliza qualquer pecador. Como se o inferno das nossas vidas não fosse suficiente, é necessário inventar outros que só o poder das religiões possa superar, ou ampliar…



A lógica cabe, toda ela, inteira e sem vergonhas, no que já sabemos sobre problemas e soluções e, sobre a frequente aparente aleatoriedade com que um e outro (problemas e soluções), nos são vendidos, umas vezes por charlatões e outras por religiões. Afinal é bem pensado, se temos uma solução vá de ataviar um problema que lhe dê saída. Se sabemos exorcizar vai de chamar o diabo, se temos o diabo vai de fazer deuses (dentro de nós).

Parece, então, que um sacerdote que agora já não é sacerdote, mas que já foi, isto porque se os sacerdotes são feitos pelos deuses só os deuses os podem “despadrar”, mas lá está, nalguns casos, os homens endeusam-se e podem, foi acusado de ter tentado tirar o diabo do corpo de uma mulher por vias menos ortodoxas. Os homens podem tudo… E este não só pode como não carece de reguladores de tratamentos de qualquer organização mundial. E desconfiamos nós da regulação da produção das vacinas…

Mas vejamos. Estou coagido a pensar que, quando se trata de tirar o diabo do corpo de outrem, o buraco por onde ele é cutucado e expulso deixa de ter importância face à sua utilidade. O Diabo saiu. Se outro qualquer, pela mesma entrada, lá não foi colocado, labor findo, obra feita. Mas advirto-me de estar errado em assim pensar. Tivesse o sacerdote em questão assim duvidado de si próprio e outra seria a desgraça final. Ficava a pessoa com o diabo só para si e o padre com os seus próprios demónios e tentações. Afinal, num presépio como num homem sempre pode caber cada besta… E, afinal, terá sido uma violação, um mal-entendido ou um desentendimento entre os demónios da que se diz vítima e os demónios do que se diz ter violentado?

O mundo é, ele próprio, uma dúvida. Será que no presépio também cabem diabos? Na realidade o Mefistófeles não é um animal qualquer e, segundo o que parece, tanto se pode meter dentro de uma pessoa como de um animal. Eu confesso, até me sinto um pouco possuído, a julgar pela vontade que tenho de desatar aos coices a este tipo de misérias.

Melhor mesmo mofar. E, nem a propósito, me veio à alembrança uma história velha, sobre a filha do Jaquim, da minha terra. A pobre catraia, na escola, fora escolhida para ser a vaca, no presépio das festividades. Claro está, a menina deu num choro convulsivo e diluviano, recusando-se a ter esse papel. Como não houvesse grande solução, a professora questionou-a sobre qual o papel que gostaria de fazer, advertindo com ar gutural, que o de nossa senhora seria para ela (o papel já estava decidido e a própria virgindade, de Nossa Senhora, não seria problema para uma professora). A filha do Jaquim, da minha terra, sorriu, na sua pureza de luar de prata, e respondeu com joia plena. Quero ser o Burro, minha senhora, quero ser o Burro!

Também eu, também eu menina, e que o jeito nos não seja parco. E também eu a compreendo. Pois que não vamos mais longe e, as histórias são para ser contadas, reza uma vetusta e certamente verosímil, sobre um meu patrício, de nome Manuel Merda que vivia desgostoso da albarda.

Correu Manuel Merda Seca e Meca para mudar de nome, mas a burocracia e os burocratas não lhe facilitavam a vida. Chegou um dia que um célebre presidente, não aquele que gostava do sorriso das vacas, mas um outro que gostava de abraços, lhe concedeu o desejo da mudança.

Diz Manuel Merda, por qual mais digna graça queres ser conhecido? Ao que o pobre homem respondeu em júbilo:

- João Merda… apenas e só João Merda.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Bom Ressentimento


Para que não restem quaisquer dúvidas, confesso o meu ressentimento, o bom ressentimento. Ando com a lembrança plena, até cima, de coisas boas.

Há poucos dias vi um filme de animação, sobre a celebração do “Dia de los Muertos”, celebração de origem Indígena, que consiste na crença de que no dia 2 de Novembro, os mortos estão autorizados a sair das suas moradas e a visitar-nos. Segundo essa crença, só aqueles que têm quem os recorde, que tenham lembranças deles, e apenas esses, conseguem autorização para fazer a viagem. E com essa crença, eu, um descrente insanável, tenho que admitir que creio, creio repleto de ressentimentos, de magníficos sentimentos, que vão e voltam. Há pessoas que não morrem!

.Tenho a felicidade, dorida, de contar, já, com algumas dessas pessoas na arca das minhas memórias. Às vezes desejo, ardentemente, que essas pessoas voltem, mesmo que seja só nos dias dos mortos. Outras vezes sinto, ressinto, que nem sequer é necessário que isso aconteça, porque essas pessoas me deram, me ensinaram, construíram em mim, constelações de universos que me permitem ser melhor do que antes de as conhecer. E sinto que eu e elas nos revisitamos regularmente. E conversamos, e rimos e choramos, como sempre fizemos.

Assim me confesso eternamente ressentido, eternamente agradecido, e t e r e a m e n t e reconhecido, Dona Lucília.

D. Lucília
Ressentido, mesmo, quando a minha filha, a quem sempre banhaste de mimos, de gestos de carinho, mas de gestos efectivos e afectivos, não de gestos ocos ou fingidos, porque resultaram sempre em bons ressentimentos para ela, quando a minha filha me fala de ti como se espelhasse esse carinho num mar de recordações, de revisitações.

E, em segredo, em segredo ressentido, confesso. Confesso que, a Dona Lucília, fez de mim um cozinheiro de terceira, para sempre… Confesso que isso não podia deixar-me mais feliz, porque, sempre que cozinho certas “comidas”, sei que a minha filha vai sempre dizer: “Está bom, pai, mas não está tão bom quanto o da Dona Lucília…”. E confesso que é verdade. Ela temperava com um amor que eu não tenho na minha cozinha. Um tempero que só as grandes Almas podem ter…

Que ressentimento delicioso, que ressoa para alem de mim, nas boas memórias que minha filha guarda e que, espero, venham a ser ressentidos nos meus netos e nos meus bisnetos... e nos bisnetos deles. Para que possa existir, sempre, sempre, sempre… Dia de los Muertos…

Até parece que estou a ressentir o sabor de uma boa jardineira, ou de umas sardinhas fardadas, ou de umas batatas no forno, só com sal e azeite… Só batatas… mas, batatas da Dona Lucília… Ahhhhhh!!!!

sábado, 9 de janeiro de 2021

 Chatos

Cresci com as histórias “em quadrinhos”, como à banda desenhada se referia o saudoso Vasco Granja. Nelas aprendi a ler, nelas aprendi humor, nelas aprendi história e nelas aprendi que a história é uma versão, e sempre uma versão, e que até há pessoas que não passam de uma versão de si mesmas.

Recordo muitas das histórias que ainda hoje moldam aquilo que sou e aquilo que faço. E que saudades tenho dos livros da editora Abril, da Disney, com o açúcar do português do Brasil. Até me recordo de se rirem de mim, e eu de mim próprio, quando lia onze em vez da expressão XI!

Uma das mais emblemáticas histórias que li foi a do Pateta como Cristóvão Colombo. Um menino irreverente, italiano de Génova, que discutia com seu pai sobre a forma da terra. Seu pai era um terraplanista convicto que argumentava, solidamente:

- Claro que a terra é chata e não redonda. Se assim não fosse o que significaria viajar pelos quatro cantos do mundo?

Da sua brilhante argumentação ainda podemos inferir que a terra não só é chata como é, também, um quadrilátero. Mas adiante.

Certo é que a história termina com o menino Cristóvão Colombo, já crescido e navegador feito, a cair, com o seu navio, da borda do mundo. A tragédia só não foi maior porque o navio ficou preso pela âncora e pendurado no mundão. Assim o Pateta pode constatar que a terra era chata e que até existia um ralo, para escoar as águas do mundo, por baixo da terra. Disto nunca falou a ninguém, para que a dúvida subsistisse.

Tornei-me, assim, um terraplanista e um amante da ficção. Hoje já não sei se a terra é redonda ou se é chata, mas sei que está pululada de verdadeiros chatos, de racistas, de sexistas, de carteiristas e outros cretinos com nome terminado em "istas", do qual são exemplos aldrabões, desonestos do intelecto e religiões.

Hoje, 9 de Janeiro de 2021, fiquei a saber que o planeta terra, redondo, quadrado, chato ou esférico, está a rodar, sobre si mesmo, a uma velocidade maior do que nos últimos 50 anos.

Será que o universo percebeu que é necessário tornar os dias mais curtos para quem apregoa penas de morte e prisões perpétuas, odeia ciganos ou qualquer pessoa que pense, se expresse, ou viva de forma diferente do seu padrão, como quem pontapeia pedras da calçada?

Para estes chatos, só dias mais curtos serão dia de menos ódio e menos medo de que os outros possam ser felizes.

Apetecia-me, por momentos e a ferver no ódio que tento não ter, que o planeta fosse chato e os deixasse cair borda fora, ou pelo ralo do fundo do mundo. Mas recuo nessa vontade, talvez defeito, e constato que é essa tolerância, de que eles (os racistas, aldrabões, burlões do raciocínio), não são feitos, que permite a sua existência.

Só a tolerância que não têm permite a sua existência. Ou será tibieza!? Que Chato!

  Pimenta no cu dos outros… (Série)   Inspirado num poste sobre espera. A vida, se a observarmos, de todos os lados, e a conseguirmos ...