domingo, 22 de março de 2020


Resulta sempre

Não faltam receitas, nem treinadores de bancada, nem sábios de todas as sabedorias, nem milagrosas religiões, nem outras tontearias, como sobejam também charlatões.
Lua da Danielle-Mae Duran (Beijinhos)
Há quem se proponha curar marrecas com limão (pois que com liminha também resulta, mas é mais demorado), há quem venda chás para caganeira, banhos para a cegueira, pingos de limão para a Covid-19… Não faltará o que ver e ouvir.
Nem os deuses do Olimpo Luminoso, nem toda a inveja de um povo podem reunir tanta imaginação.

Nos tempos em que os animais falavam, conta-se que, em noite de lua cheia, um certo cão, apenas cão, ladrava insistente e penosamente, naquele ladrar que enerva as pedras, sabem?
Um seu vizinho cão, também ele apenas cão, mas com perfil de filósofo (pois que se interrogava das cousas), perguntou-lhe:
- Irmão, vizinho cão que tanto ladras, o que te apoquenta assim?
- Eu, cão vizinho, ladro para a lua cheia, não vês, lá no alto, redonda e farrusca?
- Vejo. - respondeu o cão pensante… - Mas porque ladras assim à lua cheia?
- Pois irmão cão, eu ladro para que ela se vá embora.
- E resulta? - perguntou o cão perguntador.
- Resulta, claro que resulta, sempre! Às vezes leva a noite inteirinha, mas resulta sempre.

sábado, 21 de março de 2020


“É solitário andar por entre a gente…”
Mas não é um contentamento descontente.

Às vezes passamos uns pelos outros como formigas de formigueiros de outra galáxia ou mesmo de outro universo.
Não sei, nestes momentos de revolta, de insegurança e até de medo, de isolamento, se o que mais nos faz mais faltam são os abraços e os beijos ou os apertos de mão, ou se bem pelo contrário nos faz falta saber estar com os outros incondicionalmente, sem o casaco da indiferença ou o sobretudo da arrogância ou o chapéu do preconceito e do pútrido sentimento de superioridade miserável e mesquinho.

Hoje fui ao supermercado e, na distância que obrigatoriamente nos deve separar, senti um frio nos ossos e uma falta de dizer bom dia, como no poema de Luís Vale, Primavera:
“Apetece-me (…) apertar fraternalmente ao coração todos os homens, contar todas as fábulas que sei, desfazer todos os mitos que descobri (…)
Ah como gosto da minha sombra, como procuro mantê-la colada aos meus pés, como se por vezes fosse a única companhia que tenho…. Foi o que senti.
Espero conseguir dizer-vos, a todos, o quanto me é necessário o vosso sucesso, a vossa saúde, o vosso bem-estar, a vossa felicidade, até, eventual e tragicamente a vossa morte serena e sem sofrimentos (que espero bem longínqua).
À distância do onde estamos, mas como se fosseis a sombra colada aos meus pés, quero dizer-vos que quero dar-vos a mão e redimir-me, o quanto possa ser a vossa generosidade, porque tantas vezes:
Esteva - Cistus Crispus (foto de Bigorna)

 

Não Te dei a Mão


Desci, na vertigem da revolta,
o vale da vida perdida e solta.
Subi o serro sombrio da solidão,
na voragem frívola e oca da ilusão.

E nem assim entendi a vida.
Nem tampouco a servidão desmedida
ou a falta que faz o perdão
e uma mão cheia de utopia.

Pisei corpos caídos na berma do trilho,
cadáveres queimados pelo medo,
embrenhados na vereda do sarilho,
restos de um mundo, cambado e azedo,
ossadas nuas… Sem fundo sem zelo e sem brilho.

Mas nada me quedou.
Nada me turvou a vista.
Nada, do intrépido, me amputou
à surdez egoísta.
A náusea pútrida não me enjoou,
nem me refreou a sede da conquista.

Corri! Crente que fintaria a realidade.
Fugi… Mas colou-se-me aos pés a verdade,
que agora arrasto, como se fora um grilhão,
sem rosto e sem vaidade.
E dói-me por dentro a minha ausência,
o intento, a fome negra da razão.

Vejo, no delubro, seres tombados, de fome, miséria e tormento.
Descubro homens esfarrapados, crianças e velhos,
que, dormindo ao relento,
se arrastam descalços, com as esperanças despidas e atadas à cintura…
Sem remédio, sem tento e sem cura…
Com a vontade amputada pelos joelhos.
                                                          Poema de Bigorna


Cada Vez Pior

Era uma vez…
Tenho o privilégio de conviver com um uma gente sã, bem-disposta e de mente saudável, apesar das muitas vezes abusadas horas pelo gás do espumante, pelo sarro da baga e pelo colesterol do leitão da deliciosa Bairrada.
Este são convívio que intervalo com algumas horas de trabalho e outras de solidariedade dinâmica (que, há muito, me tem levado a dizer que só ganho o dia quando aprendo algo de novo, ensino alguma coisa ou faço alguém mais feliz do que estava), tenho histórias para contar, que enchem corações e gargantas de risos e olhares de longos e abertos sorrisos.
- Então como vai Sr. Afonso? – Perguntei.
- Olhe, vou como o Cão do Nam, vou como o Cão do Nam… (Respondeu-me o velho Afonso do seu olhar curvo a partir das bengalas tortas).
Confesso que não percebi, mas escusei-me a mostrar, ali, como se estivesse despido, a minha ignorância toda. Mas, guardei, para mais tarde perguntar.
Cortezia de um Amigo (Obrigado)
No dia seguinte, entre dois tintos, de mastigar e chorar por mais, e duas sardinhas fritas de um dia para o outro, perguntei a uns amigos se alguém conhecia o Cão do Nam. Pela gargalhada franca e contagiosa da sala percebi que a fera era conhecida.
Explicaram-me que o Nam era uma figura, um cromo, como a malta nova costuma dizer. Tinha dois cães e não só um, não, não eram ferozes… A fera era mesmo o humor telúrico, talvez acentuado pelo terroir bebido ao longo de anos.
Uma certa ocasião, vindo o Veterinário Municipal ao lugar, para vacinar os canídeos do vilarejo, apresentou-se o Nam com os cães para o efeito fadário.
- Como se chama o cão? (perguntou o S.r doutor).
- Cada vez Pior. (respondeu pronto o Nam). Cada Vez Pior, Sr. doutor.
O Veterinário calou a caixa, meteu agulha, verteu seringa, o cão latiu, o dono calou, a coisa seguiu.
Assim ficou, para sempre, gravada naquela doce e branda gente, a expressão memorável e engraçada:
- Então como vais?
- Olha, vou como o Cão do Nam… Cada Vez Pior.
Se, daqui por mil e um anos, alguém quiser explicar a origem da expressão, se ainda houver escrita e olhares sobre a razão, talvez não seja necessário explicar: “Era o simples cão, apenas cão, do Manel Nam.” Tal qual o cavalo do D. Quixote que por ser só cavalo se passou a chamar Rocinante.
Ah, mas ele tinha dois cães, e o outro, como se chamava o outro?
Já Disse

domingo, 15 de março de 2020


Cuidado com os miúdos!

Quando era bem pequeno e alguém ficava doente ou morria, costumava perguntar, ao meu Avô Bigorna, se eu também ia morrer.
Na sua grande generosidade, ou por piedade, simplesmente, ele sorria e dizia-me:
- Não. Tu vais ficar cá, com os comboios.

Ilustração de Danielle-Mae Duran (Beijinhos)
Eu ficava mais sossegado e nem voltava a preocupar-me com aquela questão. Tirando o facto de nem imaginar o que seria um comboio, para mim, não morrer já estava para lá de mais melhor.
Continuei a crescer, vi o mar, conheci os comboios e, a ideia de ficar com os comboios e poder continuar a ver o mar, não me desagradou.

Depois disso, já me desiludi com tantas coisas que, confesso ter perdido, muitas vezes, a esperança de não morrer. Direi mesmo que a maior parte dos últimos tempos só acreditei que ia morrer.
Mas, nos últimos dias, não só recordei esta doce vivência entre mim e o meu avô, como me sinto impelido a voltar a acreditar que posso ficar cá… Com os comboios.

Na realidade, pensei um pouco (acreditem que não doeu muito), e reconheci que o Velho Bigorna pode muito bem ter razão…
Afinal, ele disse-me algo que há mais de 50 anos a realidade ainda não desmentiu. Continuo VIVO!
Se vou ou não ficar com os comboios? Pouco me importa. Preferiria ficar cá mas que alguém ficasse com os comboios por mim.

Porquê?

Por puro egoísmo… Assim teria a certeza de não ser o único a ficar por cá.

Ah! E já agora, que engraçado. Com tudo isto acabei por descobrir que o Velho Bigorna continua tão vivo em mim… Até fomos os dois ver passar os comboios…

sábado, 14 de março de 2020


Corajosos…

Somos um país de guerreiros… O mundo já nos temeu e sabe disso!
Ilustração de Susana Dias (Obrigado)
Ainda ontem pude constatar tais heróicas e loucas medíocres virtudes.
Um padre, não, juro que já olhei várias vezes para a palavra para me certificar que não tinha escrito parvo, dizia a plenos pulmões que esta doença nova (a pneumonia por covid-19), não vale nada e que dela não deveríamos ter receio.
Eu até o compreendo, será um homem de fé e convicções. Não tem medo do covid-19 mas, pelo sim, pelo não, tem um para-raios na torre da igreja.
O problema não é ele não ter medo, o problema é se ele abre a boca, lá da pira onde anuncia outras barbaridades… Se ele tosse outras temeridades. Que infernos poderá ele anunciar.
Ao ouvir este (não encontro, no baú das palavras que rimem com ão, uma que defina bem coisa), vem-me à memória uma história batida, que minha avó tantas vezes me contou, quando eu ainda usava calções,  ainda andava descalço e praguejava quando estoirava o dedo grande do pé numa raiz distraída (distraída a raiz, só para clarificar).
Pisco de Peito Ruivo - Foto de Bigorna
Contava então, minha Avó, que estando, um belo dia de tempestade, um Pisco, abrigado da chuva, debaixo de um penedo do tamanho de uma casa, olhou cheio de admiração a criação grande do grande deus e pensou:

 - Se este penedo caísse, eu, como sou forte e grande (grande como um pisco dos grandes), eu era capaz de o segurar…
Mal se tinha acabado de esfumar o pensamento pequeno do grande pisco, já se ouvia no ar o ribombar ruidoso de um trovão (voz irada de deus, certamente). O que resultou num grito aflito do pobre e corajoso pisco (juro que já olhei várias vezes para a palavra para me certificar que não tinha escrito padre):
- Ai meu senhor! Tende lá mão nisso, que são muito fracas as pernas do pisco!

  Pimenta no cu dos outros… (Série)   Inspirado num poste sobre espera. A vida, se a observarmos, de todos os lados, e a conseguirmos ...