sexta-feira, 29 de setembro de 2023

 Gostava de ser, mesmo, eu (Obrigado)

Eu sou muitos, dentro do mesmo eu.
Sem que isso seja mau ou bom,
sem que isso me faça mal,
sem que isso seja doença ou saúde…
Eu sei que nem sempre sou o melhor, de todos os meus eus.
Mas, por favor… Pára de me dizer que eu pareço este ou aquele…
Pára de me comparar aos piores dos teus.
Mesmo quando isso significa uma tentativa de ofensa, o que é frequente, e tal é, quase sempre,
mais ofensa para os outros do que para o
eu.
Tal como tu, eu não sou os melhores eus, os outros são melhores do que os meus.
Deixa os teus em paz, eu cuido dos meus.
(Por favor, não volte a insistir que eu sou parecido com este ou aquele. Eu sou feio como eu próprio e pronto).
Bigorna (XXIX6023IX)
(Fotografia da minha autoria)

 O rei vai nu ou a roupa vai vazia?


Se o Rei diz que é legítimo atirar tinta ao Ministro do Ambiente, caso os jovens estejam descontentes, quando o rei está apanhado do clima, deve-se atirar-lhe… umas bocas?
Da minha experiência, é natural que, a pressão, o moscatel, o pouco dormir, resultem em sintomatologia cofusional, verborreica, cacofónica.
Alguma coprografia, em idosos desorientados, também pode ser frequente.
É pena que nunca lhes dê para o bem. Não vou comentar isso…
Mas a liberdade acima de tudo. E, eu, estou “Lélé da Cuca”
Bigorna (XXVIII6023IX)
(Tentei desenhar a casca)

 Ilda Pulga

Passam hoje, dia 27 de Setembro de 2023, 24 anos sobre a morte de Ilda Pulga (1993 com 101 anos).
Nascida em Arraiolos, ao ano de 1892, mudou-se para Lisboa, aos 13 anos de idade e trabalhou no Chiado, como costureira.
Em 1908, o escultor Simões de Almeida, viu nela os traços ideais para modelo do busto da República de 1910.
Fica a homenagem à mulher que se perpetuo nesta bela escultura de tão vivo ideal.
VIVA A REPÚBLICA!!!
(Fotografia extraída da Internet)

 Bocas Sobre Sexo..

- Conselhos, sobre como fazer bom sexo, são receitas de genéricos não homologados.
O remédio para um sexo bem feito é manipulado na hora, pelos “impacientes” que os vão tomar.
Receitas dadas, “de boca”, só têm a verdade de a boca ser imprescindível a uma

boa sarrafusca sexual.
O remédio é mesmo pôr mãos “na obra”.
As vias de administração do medicamento ficam ao critério dos alquimistas.
A “all quimia” deve ser, literalmente, toda a química, mas também a toda física, que daí resultar (se emprenhar é preia-mar).
Esperam-se efeitos secundários devastadores, entre os mais indesejáveis contam-se todas as ausências. Se nada acontecer é porque foi mal amassado. Repita o processo até transpirar de inspiração.
Em alguns casos o medicamento pode ser tomado com invólucro próprio. Nestes casos recomendam-se materiais apropriados, com elasticidade e resistência suficientes à temperatura e aumento da pressão. Lei as instruções sobre falta ou excesso de tesão.
Não esqueçamos as palavras, mas tudo o resto é válido, desde que tomado em liberdade.
Pode dispensar a leitura deste prospeto. Fazer bom sexo é para letrado e para analfabeto.
Em caso de persistência dos sintomas, não consulte, nem bruxos nem mixordeiros.
Dispense segundas opiniões que não venham acompanhadas de actos concretos.
Não se deixe inibir de gemidos ou de peidos discretos
Tome ad libitum.
Bigorna (XXV6023)
(Desenho sobre bocas, como se fosse gago)


 "Oh menina dê-mo, dê-mo

Que seu pai já m'o gabou
É gordinho e rechonchudo
De tão gordinho rachou"
Cantado pelo Ti António Tabueira do Grou da Sanguinheira.
(Fotografia da minha autoria)

 Quero ser como esta obra.

Outrora dentro de uma rocha informe.
Dizia Miguel Ângelo que as estátuas já existiam dentro da pedra, o trabalho do escultor limita-se e removê-la do seu interior.
Assim quero ser. Escultor de mim mesmo, com todos os instrumentos e ferramentas, remover de mim o que me torna imperfeito.
Mais do que a estética, quero em mim utilidade. Não uma utilidade objecto mas, acima de tudo uma utilidade objectiva.
Ser construtor de mim e servir.
Bom Domingo.
Bigorna (XXIV6023IX)
(Fotografia da minha autoria)

sábado, 23 de setembro de 2023

 Refugiados na religião.

A problemática da migração de refugiados é um tema complexo. Envolve uma pluralidade de causas e consequências que ao entranharem-se, na alma humana, são susceptíveis de despoletar o êxodo da mesma, de dentro de qualquer um (que alguma vez a tenha possuído).
A questão é transversal à história humana. Os relatos bíblicos, não só o comprovam como lhe conferem relevância suficiente para a existência a manufatura de deuses, diabos, anjos, santos, santeiros, assaltantes e outros charlatões.
Gente a fugir de países afric
anos, asiáticos, euroasiáticos, para a Europa. Gente a fugir de países latino-americanos para os EUA. Constituirão uma massa significativa da humanidade. E, isto para não falar dos que tentam fugir das prisões, sendo elas fechadas a cadeado ou fechadas a mentes obtusas de mentecaptos governantes ditadores.
Não fosse o interessante denominador comum que une os povos que querem chegar a outras regiões geográficas, e tudo isto pareceria uma história de loucos a fugir do paraíso para o inferno. Porque fugis? Porque fugis se nas vossas terras corre leite e mel?
Mas eles não fogem do paraíso. Ocorre que também não correm para o paraíso. Mas acontece, também, que eles não o sabem. Eles fogem de países, que permitem ao mundo para onde querem fugir, produtores de bens essenciais, mas que não lhes retorna o essencial para uma vida digna.
Assim se formam filas intermináveis de almas com destino à morte, ao desprezo, à escravatura, à marginalidade. Filas só comparáveis, por certo, às filas para a entrada no reino dos céus. Estas últimas explicadas pela necessidade convulsivante de acender velas de cera e mover tráfico de influência junto de santos, santinhos e santinhas, feitos à pressa para preenchimento dos balcões necessários, nos santuários edificados a preceito
Tudo isto sabe sua santidade, o Papa, presumo. E por isso ele apela ao acolhimento desses mesmos refugiados. Presumo que, incentivando todos os estados europeus e mundiais, o façam com o mesmo afinco e diligência comparável ao Estado do Vaticano. Um verdadeiro estado de refugiados religiosos.
Será que chegados ao Santíssimo Estado do Vaticano, os refugiados pobres e miseráveis, encontrarão migalhas caídas, das mesas gourmet, com as quais possam saciar a sua fome?
Bigorna (XXV6023IX)
(desenho como posso)

 Pedalar para trás!

Esta semana foi pródiga em notícias sobre a retirada e recuo da retirada, de uma escultura que representa Camilo Castelo Branco, no Porto.
E o que houve de novo?
Nada! Tirando o facto de, até novas investidas, a estátua se manter apostos, no seu posto, nada de novo.
Um substantivo colectivo, pouco substantivo e pouco colectivo, de pessoas, animadas da sua falta de alma, rogaram a remoção da estátua, alegando razões estéticas e morais, uns, e morais e estéticas, outros.
Temos que ser tolerantes, com as suas motivações, mas não tíbios com as suas vontades.
As suas motivações são, em muitos casos, imperscrutáveis. Sabemos lá que figura os figurões gostariam de colocar no lugar daquela estátua? Talvez um bispo, talvez um cardeal (em vez de bronze, quiçá em pau santo ou cerejeira carunchosa) … Quem sabe um monumento ao
santo penico para esconjurar a caganeira?
Houvera havido quem se manifestasse contra a nudez, mas também contra vestimenta (ou os dois nus ou os dois vestidos, arguia-se). Nada de surpreendente, pois, subsistindo gente que puderes havendo teriam proibido a mãe de os parir sem tolher as cuecas, que vos espanta que a nudez os confunda, e terem nascido nus mais não tenha sido que um vexatório exibir de bunda?
Compreende-se. Se há gente que manda queimar livros. Compreende-se. Se há gente que emborca todo o tipo de atrocidades, mas manda “emburcar” as mulheres, que por sua beleza os ofuscarem temem a sua concorrência sobre a beleza do Sol ou da Lua. Que medo!
Compreende-se, se há gente que tem medo das estátuas de buda e as manda pulverizar, o que não farão com a cloaca, peluda, de uma formiga.
Ah! Mas é muito diferente! Defenderão alguns… e eu compreendo, eu tolero… mas não defendo.
Ventilam a estimulação mundana da líbido. Mostram corpos bronzeados em praças nuas, semeiam a devassa… só podem querer colher a desgraça. Congeminam as almas poluídas. Depois queixam-se que o olhar guloso, do clero, despenque, em pecados, sobre corpos inocentes virginais e tapados?
Ou serão, de outro modo, não as estátuas, mas as palavras, que os inquietam e assombram? Diz, aos pés da estátua “AMOR DE PERDIÇÃO”.
O amor é insuportável para muita gente. A felicidade também, e se for a dos outros… Isso é motivo de perdição.
Vista-se, pois a estátua. Vistam-lhe sobretudo, de lata, de preconceito, do bafio cinzento, de moralismo que castra e que mata.
Transmutem-lhe o nome, travistam-lhe, fulgido, um tule, de ódio fingido. Escrevam-lhe, aos pés “INVIDEA”, e sigam sendo azedas cobras que estragam o paraíso.
E Cuidado com os decotes… Por via das Gripes… ou das Grimpas?
Bigorna (XVII6023IX)
(Penico de Petição – Obra da minha perdição)

 SNS 44 ANOS!!! (15-09-1979)

Uma boa ideia concretizada, por e para Portugal, pelas mãos do Saudoso Doutor António Arnaut.
OBRIGADO PELA TUA CONTRIBUIÇÃO. Os Homens que fazem obras, assim, tornam-se Imortais.
Não posso, sob pena de fazer perigar a minha e a nossa saúde, escrever ou falar muito sobre o SNS. Mas urge que se teçam algumas considerações, em nome da justiça, em nome da saúde e em nome da honestidade intelectual.
O SNS (Serviço Nacional de Saúde), é uma ideia impossível de entender para quem não professa ideais de Solidariedade.
Perceber que é um serviço com
defeitos e perceber que gera descontentamento é um “contentamento descontente”. É bom perceber que as pessoas olham para o SNS com a importância que nos merece o mais precioso dos nossos bens, a SAÚDE.
Não está nas melhores condições? É preocupante? As pessoas conseguem imaginar melhores cuidados de saúde? Ótimo.
Há, sempre haverá, um pranto e um ranger de dentes, naqueles que sabendo na saúde uma “galinha dos ovos de oiro”, não podem pôr as mãos gulosas e avarentas na dita galinha.
Desengane-se, pois, quem:
- pensar que todos os que dizem mal do SNS o querem ver melhor ou sobrevivente;
- pensar que todos os governantes que dizem querer o SNS o querem verdadeiramente;
- pensar que todos os profissionais do SNS querem o SNS;
- pensar que o fim do SNS é a cura para os maus profissionais de saúde;
- pensar que os profissionais de saúde que, ora se vendem, e tentam vender o SNS (por trinta dinheiros), às seguradoras, vão continuar a ser bem pagos por essas seguradoras;
- pensar que as seguradoras não querem mais do que o seu dinheiro.
Não! A estratégia global, não é a de extinguir o SNS. A estratégia é a de o “esvaziar”… lenta, silenciosa e subtilmente… Até que o ruido seja imperceptível e abafado pelo tilintar do dinheiro.
Cuidado com o barco onde pretende seguir a sua viagem. Cuidado com a barca a quem entrega a sua solidariedade.
Não espere entregar a sua solidariedade a uma barca que não gosta de solidariedade e, depois, ficar à espera da entrega correcta, do outro lado do rio.
(…) se alguém se engana, com seu ar sisudo, eles comem tudo…(…)
Há formas de escravatura que podem viver na sombra de quem ilumina quimeras de ilusão. Cuidado!
VIVA o SNS!!!
Bigorna(XV6023IX)
(no quadragésimo quarto aniversário da criação do SNS)

 A Pólvora…

Alfred Nobel, Sueco, inventou a Dinamite.
Os Suecos vão acabar com os manuais escolares digitais.
Os rebanhos de opinião, em Portugal, descobriram a pólvora.
Pensei, muito seriamente, depois passou-me, publicar este texto, de forma manuscrita e com recurso à distribuição de panfletos, nas feiras, por aí. Era uma forma de seguir a corrente e abandonar “o digital”. Talvez, quando fosse lido, se conseguisse ser lido, se houvesse quem soubesse ler, se alguém quisesse ler, talvez já tivéssemos voltado ao digital, novamente.
Agora que decidi, tardiamente, ad

erir ao Facebook, se a ideia pega, fico outra vez a falar sozinho.
Está a fazer-me lembrar, o Meu Querido Amigo, Fraterno, Mário Oliveira, agora a viver num outro Oriente, que ao apresentar o Rancho Folclórico da aldeia, começava por dizer: - Vamos iniciar a nossa actuação com “A Modinha de Sair”.
Vamos voltar a escrever à mão? Vamos. A ler livros em papel? Vamos. A ler???? Vamos!!!
Isso é que era… Voltar a ler…
O que faz falta é perceber e dizer o que se percebe, para que se diga que os manuais escolares devem ser em papel e não em formato digital. De outro modo é p a p a g a i a d a.
São os benefícios para o desenvolvimento cognitivo? Ótimo!
São os benefícios para as papeleiras? naaaa!!!!
São os benefícios do contra? aaahhh!
Ainda me lembro da minha primeira lousa (Ai que sauddeds que eu tenho de mim. Também). Acabou espatifada quando o “João Medonho”, bom rapaz e bom amigo, me espetou uma biqueirada na mala dos cadernos…
Para quem não sabe o que era uma lousa, na escola antiga, era uma versão dos modernos tablets, em que se escrevia digitalmente (com recurso aos dedos e a uma pen de ardózia) – “Prontos”. Escrevia-se, apagava-se, com o dedo (lambuzado de cuspe – da nossa própria língua). E o artefacto lá estava pronto para novos desenvolvimentos cognitivos.
Talvez valha a pena regressar ao passado. Talvez valha a pena regressar a um passado mais passado e imaginar a professora, na idade da pedra, a ditar o ditado (que podia ser sobre a “dita dura”), e o Jaquim, da minha terra, a pôr o ponteiro no ar (o ponteiro de esculpir hieróglifos na rocha), e a interromper:
- Senhora Professora? Homem, escreve-se com um testículo ou com dois testículos?
E veio-me à memória (não uma frase batida…), mas a cana* da índia, em riste, nas mãos doces da professora, tolheu-me a rima...
Que caneta tão comprida que ela tinha, aquela cana macia, cheia de tinta explicativa. Da sua secretária, lá na frente da enorme sala de aulas, da minha velha escola (hoje tão pequenina), ela escrevia coisas na cabeça do Jaquim, mesmo no fundo da sala. E que eficiência didática que aquilo tinha. A eficácia era duvidosa (ele nunca aprendeu a ler, coitadito). Faltou o diagnóstico de dislexia, hiperactividade, asperger… coisas… cenas…
*Era uma “can a neta” de escrever nódoas negras na cabeça dos meninos...
Pois… O importante era mesmo que aprendêssemos a ler. Que lêssemos. Que conseguíssemos saber o que lemos. Que alcançássemos o que nos dizem nas entrelinhas que se não escrevem…
E, já agora, que eu soubesse escrever isto com algum jeitinho e elegância. Desculpem!
Mas podemos pensar e estudar o equilíbrio do uso do digital e do analógico? Devemos!
Podemos voltar a escrever à mão, a fazer à mão, a ler à mão. O mais importante é que o conhecimento não sirva para manipular. Isso é que era…
Já agora, que não tem nadinha a haver com isto:
- O investimento, dos países Árabes, no futebol, terá alguma relação com o nosso – FADO – FÁTIMA e FUTEBOL - ?
Bigorna(XIV6023IX)
(Ilustração do autor – Juro que queria desenhar uma Lousa!!!)

terça-feira, 12 de setembro de 2023

 O Gato do João dos Vais

Existe um lugar, pertencente à freguesia de Lagos da Beira e Lajeosa (próximo de um povoado com o nome de Chamusca da Beira), onde existia uma antiga Padaria: a Padaria das Prairas.
Durante décadas, do século XX, ali se cozia pão, amassado com as mãos, calejadas, as mesmas mãos que lançavam o grão à terra, as mesmas mãos que os chãos pedregosos e duros cavavam. As mesmas mãos que alimentavam, a lenha (rachada à mão), os quentes fornos, nas horas em que o sol dormia e deixava, no seu lugar, a Lua, vendo os namorados beijar, escondidos, e ouvindo os gemidos de desejos negados e reprimidos. Mas desejos bem transpirados e orvalhados, evaporados em segredos.
Contava-me, minha avó, uma das vendedeiras de pão, da dita padaria, uma estória. As estórias repetidas, das avós, acompanham, bem, com sabor a pão torrado nas brasas, com azeite no lugar da manteiga e umas gotas de vinagre de vinho tinto. As estórias deixam de ser estórias só de palavras planas e sem cheiro ou sabor. As estórias sabem a regaço de avós, sabem à infância, e a vento uivante nas frestas mal jungidas das janelas velhas.
Nunca olho, do outro lado do vale, para a padaria das Prairas (agora só o seu lugar geográfico), sem sentir o sabor do pão com azeite e vinagre e sem o cheiro do avental da minha avó. Nem sempre conseguimos perceber a matéria de que somos feitos. Quando abrimos as caixas das memórias, os nossos computadores mais antigos e genuínos, eles mostram-nos que o conhecimento é feito de sentidos. Feito do espinho no pé, da unha rebentada na raiz da árvore do caminho, da vespa que picou e da cobra que nos assustou e só queria fugir e esconder-se.
Contava, então, com sorrisos marotos (que me fez tão bem herdar dela), que por ali havia um célebre gato malhado e gatuno. Todos os gatos das histórias da minha avó eram malhados e gatunos, mesmo que nunca tivessem roubado nada a ninguém. Aquele é o gato de um tal João dos Vais e devia ser tão irreverente quanto o dono. A verdade é que um gato deve ser feito de irreverências. Se um gato não for insistentemente teimoso e irreverente, não presta para ser gato. Melhor seria que fosse cão.
Esse gato, que durante o dia ou dormia ou desaparecia dos olhares, sistemática e exasperantemente, roubava pão ao padeiro, durante a noite. Entre um raer transpirado do forno quente, entre um tender da massa levedada ou entre o tirar e o meter do pão no forno, o gato lá se abarbatava com um pãozinho. Ágil e matreiro, de unha bem afiada e camuflado a preceito, o Gato do João dos Vais lá se ia safando. Nos intervalos ainda arreliava os mochos que lhe imitavam o miar.
Dia após dia, noite após noite, Lua após Lua… O Gato ia acumulando iras e feles nos maus fígados do padeiro.
Zás, catrapús, pim… Um dia, com mais agilidade e menos cachaça, a coisa deu-se:
O Padeiro apanhou o ladrão em flagrante delito. O pobre do bichano tentou manobras de evasão. Tentou filar a unha, mas sentiu que não devia ferir as mãos indispensáveis do padeiro. Ainda pediu clemência… bufou impropérios (para quem não sabe, o bufar dos gatos não é mais do que uma tentativa de palavrar calão e vernáculo contido pela educação conservadora das mães gatas – o Fsssss é uma emenda de palavrão proibido e apetecido). Também há, em versões mais modernistas, uma provável dislexia incurável, mas o f, para começo da palavra, não engana.
Tunga! O padeiro filou e o pobre do bichano acabou detido e castigado sem julgamento, à boa maneira dos tempos da outra senhora.
Apareceu, o pobre bichano, com ar de bem morto, pendurado num mastro, com pregão e baraço:
Eu sou o gato do João dos Vais,
E esta noite andei a trote.
Por causa de dez Reis de pão,
Deram-me cabo do fagote.
A história não acaba aqui.
Tinha o Padeiro uma linda filha, linda como todas as filhas. Vendo, ela, o gatinho pagando tão duras penas, logo o libertou da forca e o escondeu bem longe de olhares. Ficou o Padeiro com o fígado sossegado, mas os problemas não acabaram. Se a coisa pode piorar… piora. Se pão de pobre, quando cai, cai sempre com a manteiga para baixo, vida de padeiro pobre, arde nas brasas do forno.
Não tardou que uma praga de ratos roubasse mais pão que o Gato Ladrão do João dos Vais.
A menina, ao aperceber-se de tamanha tragédia, contou ao Padeiro que, lá na escola da aldeia, a professora lhes tinha falado da antiga ligação entre os Faraós e os gatos, no Antigo Egipto. E que os gatos caçavam ratos… e que três ao prato… e coisa e tal…
Pai, Padeiro arreliado e de maus fígados, não é um ser sem coração. De imediato percebeu a menina… Fez das tripas coração e dos fígados vistas grossas, amassou o ressentimento, atacou em massa e defendeu em bolo…
- Traz lá o estupor do gato… assim como assim, o bicho tem sete vidas… Eu já lhe estoirei com uma e por castigo ganhei setenta ratos… De azares nunca os pobres são fartos!
E assim, voltou o Gato do João dos Vais, à vida de gato gatuno, certamente a fazer sandochas de ratos, com pão fresco e saboroso…
São assim, as vidas dos pobres, são assim as vidas dos padeiros, são assim as sete vidas dos gatos. É assim o amor das Avós. (não era nada disto que minha avó contava… mas fez-me bem).
Bigorna (XII6023IX)
(Ilustração de um Amigo - Obrigado)

 Dores… Na Vagina.

Há poucos dias, um comentador, “apoliticado”, das nossas praças televisivas. Um daqueles que tenta transformar a opinião publicada em opinião pública. Colocando-se em bicos de pés, pôs a boca no funil e anunciou, aos quatro ventos, com os seus sete foles, as s

uas setenta vontades de ser Presidente da Cousa Pública.
A minha mente é algo imperscrutável e eu já me habituei a não a maçar com perguntas. Quando não percebo, não percebo e pronto. Por isso, não ia interrogar-me por que raio de motivo me veio à “metoita”, a anedota que vou tentar contar.
Entrando pelo consultório do Doutor Gynesio (IIlustre Especialista de Doenças de Senhoras), a Senhora Aninhas, anã desde o seu nascimento, logo se foi dolorosamente queixando de dores cortantes:
- Ai Senhor Doutor, sempre que chove, sofro horrores com dores na vagina!
- Na sua, é claro, foi interpelando o Doutor Gynesio. E diga-me, isso só acontece quando chove?
- Sim. Tirando os dias em que chove, nunca me doeu tal sítio fundeiro, Senhor Doutor.
- Pois tire a roupa que lhe cobre a sua senhora das dores e deite-se na mesa ginecológica, para eu a observar.
Depois de observar, tocar, cutucar, auscultar e bitocar, a senhora das dores da Senhora Aninhas anã, resolveu-se o Senhor Doutor Gynesio:
- Sabe. Nada na sua história me parece anormal, tirando o facto de ela só lhe doer em dias de chuva. Não sendo, hoje, dia de chuva, sugiro que me procure num desses dias. Terei todo o gosto em a voltar a observar, tocar, cutucar, auscultar e bitocar, já que é meu interesse perceber um tão raro e complexo síndroma.
Não tinha, ainda, passado mais do que um quarto minguante, lá estava Aninhas a anã, num dia de copiosa chuva e dores dolorosas na vagina.
- Pois tire a roupa que lhe cobre a sua senhora das dores… (ordenou o Senhor Doutor, circunspecto e de mangas arregaçadas para o trabalho árduo).
Mal começa a observação logo clamou pela sua criada:
- Truda! Traga-me uma tesoura. Das grandes!
- Ai Senhor Doutor! (clamou Aninhas a anã). Vai me operar à co…
E não acabou a pergunta pois que atento, o Senhor Doutor atalhou, de tesoura em riste:
- Não minha senhora. Então a Senhora vem aqui com dores na Vagina e eu ia operá-la ao que a senhora ia quase dizendo?
Aninhas calou, envergonhada, embaraçada e encolhida no tamanho da sua impulsividade.
Terminado o trabalho, que de rápido e indolor se mostrou fácil, mandou o Doutor Gynesio que Aninhas se colocasse em pé e caminhasse.
- Então, as dores na co… ia dizer, na Vagina?
- Ai Senhor Doutor. Ai Senhor Doutor que estou como se não chovesse. Que milagre me fez Senhor Doutor?
- Simples minha Senhora. Cortei um pouco das galochas de Vossa Excelência. Estes dois bocadinhos que incomodavam as confrontações laterais da vossa co… Vagina.
Pois…
Às vezes não é a estatura que constitui o problema. O problema está na necessidade de fazer adaptações, das realidades, à estatura disponível.
Será por isso que o tal “comentadeiro”, depois de se anunciar candidato e depois de ter estado à mesa dos adultos do Conselho de Estado, tentou baixar o nível da Presidência da Coisa Pública?
Terá sido por esse motivo que veio “bufar” e mofar sobre o conclave presidencial?
Bigorna(XII6023IX)
(Ilustração do Autor)

 In Vino Veritas


Diz uma quadra popular:
O vinho é coisa santa,
Que nasce da cepa torta.
A uns faz perder o tino
E a outros errar a porta.
Se não perdi o tino, julgo ter visto um dilúvio de vinho, por terras de Anadia, ontem, aos dez dias do mês de Setembro, do ano de dois mil e vinte e três, desta era de não verdadeira luz. Não me espanta. Se, e de acordo com as escrituras, deus prometeu não voltar a castigar-nos com outro dilúvio, conhecendo, algo, sobre a “versatilidade” dos textos bíblicos, devemos ser cautelosos. Deus mostrou o Arco da Velha (vulgo arco-íris ou arco da velha aliança), como prova de que não mais nos afogaria em águas… Mas sobre vinhos… deter-se-á pelos mistérios?
É surpreendente que, face à tragédia, à catástrofe, à hecatombe, de milhares de litros terem escapado da prisão, os lamentos se não focarem na perda. Nem parecemos um país de bebedores. Ó tempos, ó costumes destes tempos, já nem a dor nos doi?
Eu esperava ver choros compulsivos, estupores de choque, esgares de raiva, rasgamentos colectivos de vestes de indignação, pranto e ranger de dentes. Mas nada. Tudo o que consegui perceber foi alguma indignação sobre a segurança do detentor do líquido perdido ou com as leis municipais… e leves preocupações ambientais.
Salienta-se o bom humor, de alguém, que já sugere a mudança de nome do rio Levira para Rio Ébrio. Vi peixes em êxtase a pedir uns jaquinzinhos ou umas petingas fritas, para acompanhar o festim. Vi peras a pedirem para ficarem bêbedas e cabras a correr e a pedir chanfana… “foi bonita a festa pá”
Indignação pela perda do vinho… Népias… Nadas… Zeros… O que é isto? O mundo só pode estar perto do fim!!!
Mas, pensando melhor, tudo se explica.
Já ninguém acredita no fim do vinho. Valha-nos a fada dos dentes!
Afinal, depois de as próprias escrituras (Palavra da Salvação), terem revelado o milagre das Bodas de Caná (sem que ninguém se tenha rebelado com o vinho martelado), nada mais pode turbar um amante de vinho.
Basta que haja água… Também há quem o faça de uvas! Mas não sejamos puristas…
O vinho pode revelar a verdade, mesmo que o vinho não seja verdadeiro.
Bigorna(XI6023IX)
(Desenho do autor)

  Pimenta no cu dos outros… (Série)   Inspirado num poste sobre espera. A vida, se a observarmos, de todos os lados, e a conseguirmos ...