quinta-feira, 7 de setembro de 2023

 

A Graduação da Saudade

 


Não é uma novação, que o nosso conceito sobre a sabedoria dos nossos pais flutue com a nossa própria idade. Olhando para trás, no tempo, sabemos que isso é luzente, mas no momento, o barulho das coisas, opacifica-nos a visão.

Enquanto crianças, de tenra idade, olhamos para os nossos criadores e eles são verdadeiros sábios. Com o nosso crescimento encetamos a pôr em dúvida essa avaliação e, não raro, iniciamos um processo inverso, que leva esse conceito a um “O velho está ultrapassado, já não sabe nada destas realidades”. Na exacta medida em que nos vamos avelhentando, este conceito inverte a curva e, “os nossos velhotes” ganham, de novo, estatuto de sábios…

Recordo-me de ter rido, por dentro, com satisfação, de um episódio que vivi com meu Saudoso Pai. Numa das visitas que lhe fiz, já ele idoso, pediu-me para lhe ajudar a interpretar uma “missiva” do fornecedor de energia eléctrica. Uma daquelas cartas que podem querer dizer tudo, nunca dizem nada, e alvitram, sempre, aumentos das tarifas.

Eu não estava na posse dos meus óculos de leitura e disse-lhe:

- Sim pai, eu leio isso, mas, acaso, não terá por aí uns óculos que me empreste, eu já tenho dificuldade em ler sem óculos.

Meu pai apontou um par de óculos, lá abandonado a um canto, e comentou:

- Experimenta aqueles. Não sei se consegues “safar-te” com aqueles, eu já não vejo nada com eles. Acho que já perderam a graduação!

Achei delicioso. Nunca mais esqueci aquele momento. Não consegui perceber se brincava com a sua falta de visão, se lamentava a qualidade de fabrico dos óculos ou se algo mais. A sua imensa sabedoria já não cabia na minha capacidade de visão.

Hoje, continuo a rir, por dentro. Não sei se os óculos perderam a graduação ou não.

Hoje, depois de alguns anos, sei que meu Pai era um sábio e que a graduação das saudades aumenta sempre.

P.s. – Sobre a carta da energia… sim, as letras ficaram mais pequenas e os preços graduaram.

Bigorna (VII6023IX)

(Ilustração do autor)

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