quinta-feira, 12 de julho de 2018


Está Pardo


Chamava-se Eduardo, O Senhor Eduardo.  Poucos saberiam e quase ninguém se importava de o saber ou em o saber. Todos o chamavam de “Estápardo”.

Saudades da minha infância já longínqua…

O pobre homem, que uns dizem que “virou do cérebro” por desgosto de amores, vagueava pelas ruas do mundo, fazendo jus ao inegável facto de nele não existirem muros (a não ser aqueles que o mais impertinente dos seres tenta construir e para os quais se inventa sempre uma escada mais alta). Eu quereria, muito mais, ser de Pontes.
O Voo calado do Açor - Foto de Bigorna
O Estápardo, perdoem-me, o Senhor Eduardo, como sempre fiz questão de o tratar e como a minha família exigia que eu o fizesse – Porque a boa educação cabe em todo o lado – Era um homem de poucas palavras, pelo menos perceptíveis. Deslocava-se sempre a pé, sempre de sobretudo, porque a lã nunca pesou ao carneiro, de cajado, ar curvado, bordão no qual não se apoiava. Portava-o na horizontal, na mão, lembrando um nível com que avaliava a humanidade, que afinal é toda muito igual em suas diferenças, sobretudo no nascimento e na morte.
Quando queriam vê-lo irritado, e isso é algo que parece nivelar muita da gentalha do povão encarniçado – que goza especial prazer orgástico, com tradições violentas sobre animais – Gritavam-lhe:

 - Estápardo!


 E ele, iniciava um chorrilho verborreico, pouco perceptível, mas que permitia à criançada aprender um rosário pagão, de rezar pelas ruas da amargura, mas bem mais variado e menos nostálgico, do que aquele outro ensinado pela figura pardacenta, gorda e cinzenta do adro das falsidades.
Rachava lenha como se não existisse amanhã. Pedia, depois de rachar a lenha, uma malga de caldo e uma côdea de broa. Comia. E não se despedia. Reiniciava a procissão em honra dos deuses e santos que só a sua cabeça conheceria e, semanas ou meses depois de ter visitado outros, sabe-se lá que poisos, voltava.

Hoje está pardo, também dentro dos homens nivelados. Seria exigível um nível social mais elevado…

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