terça-feira, 8 de novembro de 2022

 (A)Talhar o Cobrão


Para os menos familiarizados, Cobrão é uma das denominações populares para a infecção secundária à varicela (provocada por um vírus denominado Herpes Zoster). Esta infecção pode ser também conhecida como Zona. É uma doença benigna mas com prevalência de alguns casos de complicações, em especial em idosos, com dores severas, perturbações da visão (podendo mesmo levar à cegueira), encefalopatias graves (sobretudo quando localizado na face, cabeça ou pescoço). As complicações podem ser limitadas no tempo mas podem, também, perdurar por longos períodos ou mesmo de forma permanente.

Fotografia de receita para reza (usar com fervor e esperança)

Para os maiores de 50 anos recomenda-se a vacinação (procure informação no seu serviço de saúde), a vacina contém vírus vivos atenuados e, por esse motivo, requer prescrição médica e algumas cautelas (devendo ser avaliada a competência e estado do sistema imunitário da pessoa a vacinar).

Existe medicação para diminuir a virulência da infecção e o impacto dos sintomas.

Também existem remédios do antanho…

Mas é melhor prevenir do que remédio dar.

Vacine-se!



 O Tempora, O Mores!


Enquanto fui afinar o tratamento de uma sutura cirúrgica, eis que me brinda, a sorte, com esta deliciosa peça de cultura popular, na aldeia de Ferreiros, Concelho de Anadia, Distrito de Aveiro, Portugal, terra onde se pode beber esta fina cultura e mastigar bons vinhos.

(Fotografia de Bigorna)
Num futuro, que não imagino muito distante, haverá quadros etnográficos, como este, que afagarão as nossas memórias, dizendo: Tiram-se fotocópias, digitalizam-se documentos e configuram-se computadores… E os nossos netos perguntarão (não imagino a quem), o que era isso.
Serão outros tempos e outros costumes. O tempora, o mores!





segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Identidades


(Fotografia de Bigorna)

Direita e recta seria apenas um pau, sem história, sem futuro, sem passado… com pouco interesse, com estética improvável.

As tortuosidades, o outro lado da luz, a ausência de folhas e os ramos desgrenhados, conferem-lhe um passado, uma memória, a identidade de uma árvore.
Gosto de permanecer disforme, como um Quasimodo… A disformidade que me enforma confere-me identidade, confere-me Graça. E ter Graça é ter identidade, mais do que ser giro que é apenas ser redondo.





 Anões


Na Arca, gasta pelo tempo e enevoada pelas lonjuras, das memórias da minha infância, encontro memórias dos livros onde os anões das florestas habitavam enigmáticos cogumelos.
Tropeçou o meu olhar nostálgico nos deste quadro e logo me veio à mente que, há poucos dias vi um gigante com a unha do dedo do pé grande repleta de cogumelos. Alguém lhes chamou fungos... O meu nariz fungou e, para mim, continuam a ser cogumelos.
Espanto me rebateu no fundo do poço das inquietações e logo me perguntei.
Quantos anões viverão em cada um de nós?

Gymnopilus junonius  (Fotografia de Bigorna)


Não fora a alegria de não estarmos sozinhos e tudo estaria bem. Mas, o problema é a baixa estatura moral de alguns deles... é triste.

sábado, 29 de outubro de 2022

 

Emitimos Luz

 

Inúmeras entradas no Sr. Google nos conduzem para
artigos mais ou menos científicos sobre o facto de o corpo humano emitir luz ou de, pelo menos, ter essa capacidade.

Não me detive muito sobre essas dissertações. Para mim não constituem quaisquer novidades. Até pensava e continuo a pensar que uma das nossas grandes funções, ao longo da breve peregrinação que fazemos entre a medida da humanidade (pois que o Homem continua a ser a medida de todas as coisas), seria ser luz.

Ponte do Poço de Santiago (foto de Bigorna)

Emitir Luz talvez nem seja, mesmo, exclusiva capacidade, dos humanos. Os mesmos processos bioquímicos que explicam a bioluminescência, nos humanos, são comuns a muitos outros seres vivos dos quatro cantos da taxonomia.

O que me apaga a luz dos dias e me faz as noites sombrias e solitários é o que fazemos com a nossa luz e com a luz dos outros. Como cuidamos da “conta” da luz de cada um e o que fazemos para ofuscar ou propalar essa luz, que conta damos dela, que conta vamos dar da conta de tanta falta de conta.

(foto de Bigorna)

E já nem falo de conhecimento, de cultura, de recriação, de fraternidade… Que dessa luz só os astrofísicos poderão dar conto, quando do futuro observarem a quantidade de luz da Via Lactea e disserem:

- Neste momento, a humanidade estava e emitir pouca luz… Que pena! Os Deuses haverão de fazer-nos pagar por isso.

Andava eu às voltas com este remorso, em ensejos lânguidos de jiboiar pelas estradas com a minha Deolinda e a minha Joana. Para quem não sabe, duas companheiras que nunca rangem os dentes, não se “afermentam” comigo e não rasgam as vestes da indignação por eu ter desprendido flato num dia de pouca ventosidade atmosférica. Como ia dizendo, andava eu curvando boas curvas e vendo o que de belo os meus olhos são capazes de ver como belo, quando me admirei de avistar a bela ponte centenária do Poço de Santiago. Bela. Uma peça arquitectónica sublime.

Assim a vi e assim me atirei ao rio para lhe captar o melhor sorriso possível, com ajuda da lente arguta da minha Joana (a máquina fotográfica), entre mil perigos, ainda que o Vouga, por aqueles dias fosse apenas um manso regato compassado e desmilinguido. Parecendo que não foi arriscado! Aprendi a nadar tardiamente e nunca para me atirar à agua, mas sim e só para o mero fatídico acaso de lá tombar.

Voltava eu das aguas revoltas onde me aventurei, por loucura e paixão, quando vislumbrei, na margem, um casal de meia idade, em disfarçado passeio de namorisco. Atirei o olho por cima do ombro e ainda percebi uma cotovelada dela sobre a pança dele:

- Vês, os estrangeiros (que um deles seria eu), vêm muito fotografar a nossa ponte. A nossa ponte é muito FOTOVOLTAICA! Não achas?

Ri para dentro. Devo ter rido da minha ignorância, pensava mesmo que ela queria dizer fotogénica. Até partilhei o sucedido com alguns amigos…

Mas a senhora tinha toda a razão e eu não lhe percebi o alcance. A Ponte, de tão linda que é, EMITE LUZ.

Uma ponte é sempre uma ponte. Mas uma ponte, cuja estética transforma o objecto em mais que um objecto, é uma Obra de Arte.

Enfim, uma outra forma de emitirmos luz.

                                                        Bigorna, Outubro de 2022

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

 

Coisas do Arco da Velha

 

Não posso resistir a mofar de algumas misérias humanas. Ainda que saiba poder ser mal recebido a rir, a verdade é que chorar não me aparenta acrescentar melhor provento.

Ouvi falar de uma ideia, pequena na sensatez, mas grande na intencionalidade. O desígnio versava sobre sermos nós o próprio presépio e sobre o “menino jesus nascer dentro de nós”. Coisas deste festival de festas, luzes e saturnálias

Confesso que nem a bondade do espírito natalício me assossegou, nas entranhas, as estranhas contradições destes propósitos. Lá sermos presépio, até pode ser verdade e aceitável. Uns mais outros menos conseguimos albergar, simultaneamente, vários animais dentro de nós, com trivial e eclética bestealidade. Por mim, sem dificuldades, faço de burro, com algum tremor em defraudar o lindo animal. Já quanto ao “menino jesus” nascer dentro de nós… Bem! Trata-se da tendente miserável capacidade humana, no seu melhor, para fazer deuses. Vejamos, o quão poderosos somos, que até deuses somos capazes de manufaturar.

Mas como se não bastasse, ainda esta ideia me não tinha assentado nas vísceras, já outra se levantava em forma de notícia (nada nova no caso), sobre um caso de exorcismo ou abuso ou violação diabólica ou, quiçá, onírica obnubilante opera. É a mesma miséria humana, mas agora de trevas travestida. A incomensurável habilidade para cozinhar demónios, diabinhos, mefistofélicos e levados da breca, alimentada a pecados sexuais ou a fomes impiedosas dele, miserbiliza qualquer pecador. Como se o inferno das nossas vidas não fosse suficiente, é necessário inventar outros que só o poder das religiões possa superar, ou ampliar…



A lógica cabe, toda ela, inteira e sem vergonhas, no que já sabemos sobre problemas e soluções e, sobre a frequente aparente aleatoriedade com que um e outro (problemas e soluções), nos são vendidos, umas vezes por charlatões e outras por religiões. Afinal é bem pensado, se temos uma solução vá de ataviar um problema que lhe dê saída. Se sabemos exorcizar vai de chamar o diabo, se temos o diabo vai de fazer deuses (dentro de nós).

Parece, então, que um sacerdote que agora já não é sacerdote, mas que já foi, isto porque se os sacerdotes são feitos pelos deuses só os deuses os podem “despadrar”, mas lá está, nalguns casos, os homens endeusam-se e podem, foi acusado de ter tentado tirar o diabo do corpo de uma mulher por vias menos ortodoxas. Os homens podem tudo… E este não só pode como não carece de reguladores de tratamentos de qualquer organização mundial. E desconfiamos nós da regulação da produção das vacinas…

Mas vejamos. Estou coagido a pensar que, quando se trata de tirar o diabo do corpo de outrem, o buraco por onde ele é cutucado e expulso deixa de ter importância face à sua utilidade. O Diabo saiu. Se outro qualquer, pela mesma entrada, lá não foi colocado, labor findo, obra feita. Mas advirto-me de estar errado em assim pensar. Tivesse o sacerdote em questão assim duvidado de si próprio e outra seria a desgraça final. Ficava a pessoa com o diabo só para si e o padre com os seus próprios demónios e tentações. Afinal, num presépio como num homem sempre pode caber cada besta… E, afinal, terá sido uma violação, um mal-entendido ou um desentendimento entre os demónios da que se diz vítima e os demónios do que se diz ter violentado?

O mundo é, ele próprio, uma dúvida. Será que no presépio também cabem diabos? Na realidade o Mefistófeles não é um animal qualquer e, segundo o que parece, tanto se pode meter dentro de uma pessoa como de um animal. Eu confesso, até me sinto um pouco possuído, a julgar pela vontade que tenho de desatar aos coices a este tipo de misérias.

Melhor mesmo mofar. E, nem a propósito, me veio à alembrança uma história velha, sobre a filha do Jaquim, da minha terra. A pobre catraia, na escola, fora escolhida para ser a vaca, no presépio das festividades. Claro está, a menina deu num choro convulsivo e diluviano, recusando-se a ter esse papel. Como não houvesse grande solução, a professora questionou-a sobre qual o papel que gostaria de fazer, advertindo com ar gutural, que o de nossa senhora seria para ela (o papel já estava decidido e a própria virgindade, de Nossa Senhora, não seria problema para uma professora). A filha do Jaquim, da minha terra, sorriu, na sua pureza de luar de prata, e respondeu com joia plena. Quero ser o Burro, minha senhora, quero ser o Burro!

Também eu, também eu menina, e que o jeito nos não seja parco. E também eu a compreendo. Pois que não vamos mais longe e, as histórias são para ser contadas, reza uma vetusta e certamente verosímil, sobre um meu patrício, de nome Manuel Merda que vivia desgostoso da albarda.

Correu Manuel Merda Seca e Meca para mudar de nome, mas a burocracia e os burocratas não lhe facilitavam a vida. Chegou um dia que um célebre presidente, não aquele que gostava do sorriso das vacas, mas um outro que gostava de abraços, lhe concedeu o desejo da mudança.

Diz Manuel Merda, por qual mais digna graça queres ser conhecido? Ao que o pobre homem respondeu em júbilo:

- João Merda… apenas e só João Merda.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Bom Ressentimento


Para que não restem quaisquer dúvidas, confesso o meu ressentimento, o bom ressentimento. Ando com a lembrança plena, até cima, de coisas boas.

Há poucos dias vi um filme de animação, sobre a celebração do “Dia de los Muertos”, celebração de origem Indígena, que consiste na crença de que no dia 2 de Novembro, os mortos estão autorizados a sair das suas moradas e a visitar-nos. Segundo essa crença, só aqueles que têm quem os recorde, que tenham lembranças deles, e apenas esses, conseguem autorização para fazer a viagem. E com essa crença, eu, um descrente insanável, tenho que admitir que creio, creio repleto de ressentimentos, de magníficos sentimentos, que vão e voltam. Há pessoas que não morrem!

.Tenho a felicidade, dorida, de contar, já, com algumas dessas pessoas na arca das minhas memórias. Às vezes desejo, ardentemente, que essas pessoas voltem, mesmo que seja só nos dias dos mortos. Outras vezes sinto, ressinto, que nem sequer é necessário que isso aconteça, porque essas pessoas me deram, me ensinaram, construíram em mim, constelações de universos que me permitem ser melhor do que antes de as conhecer. E sinto que eu e elas nos revisitamos regularmente. E conversamos, e rimos e choramos, como sempre fizemos.

Assim me confesso eternamente ressentido, eternamente agradecido, e t e r e a m e n t e reconhecido, Dona Lucília.

D. Lucília
Ressentido, mesmo, quando a minha filha, a quem sempre banhaste de mimos, de gestos de carinho, mas de gestos efectivos e afectivos, não de gestos ocos ou fingidos, porque resultaram sempre em bons ressentimentos para ela, quando a minha filha me fala de ti como se espelhasse esse carinho num mar de recordações, de revisitações.

E, em segredo, em segredo ressentido, confesso. Confesso que, a Dona Lucília, fez de mim um cozinheiro de terceira, para sempre… Confesso que isso não podia deixar-me mais feliz, porque, sempre que cozinho certas “comidas”, sei que a minha filha vai sempre dizer: “Está bom, pai, mas não está tão bom quanto o da Dona Lucília…”. E confesso que é verdade. Ela temperava com um amor que eu não tenho na minha cozinha. Um tempero que só as grandes Almas podem ter…

Que ressentimento delicioso, que ressoa para alem de mim, nas boas memórias que minha filha guarda e que, espero, venham a ser ressentidos nos meus netos e nos meus bisnetos... e nos bisnetos deles. Para que possa existir, sempre, sempre, sempre… Dia de los Muertos…

Até parece que estou a ressentir o sabor de uma boa jardineira, ou de umas sardinhas fardadas, ou de umas batatas no forno, só com sal e azeite… Só batatas… mas, batatas da Dona Lucília… Ahhhhhh!!!!

  Pimenta no cu dos outros… (Série)   Inspirado num poste sobre espera. A vida, se a observarmos, de todos os lados, e a conseguirmos ...