domingo, 18 de junho de 2023


 Há dias assim.

Dias em que tudo é um reflexo de um bom sorriso.


Vi um sorriso, e era um sorriso deliciosamente desalinhado...


Era um sorriso tão sorriso que ficou a fazer eco em todos os olhos e em todos os olhares,

  em todas as flores,

em qualquer sítio e em todos os lugares,

    nas areias dos caminhos,

nos pássaros, nas árvores e nas borboletas de todos os tamanhos e cores.


Era um sorriso desalinhado.

Depois fechou a janela e a parede da casa ainda continua a sorrir...

Nem o sol queria pôr-se, queria ficar, pra sempre, do mesmo lado.


Bigorna (XVIII6023XI)


Fotografia de Bigorna

sábado, 17 de junho de 2023

 O Desnorte que Orienta



Por vezes o sol não nasce no Nascente. 

Como se por nascer do avesso se sentisse mais contente. 

Os olhos do mundo ficam estrábicos, 

vesgos, tortos, torpes, assaz trágicos.


Desorienta-se-nos o Oriente e baralha-se-nos o Ocaso com o Nascente. 

De Austral passa a soprar o vento Norte.

De tanta confusão se funde o azar à sorte. 

O Sul perde a razão e desnorteia, cru e ardente.

 

Se também em ti a morte e a vida se confundem, 

dá a volta à tua rosa-dos-ventos.

Pinta um arco-íris nos teus olhos 

e parte à conquista de outros tempos. 


Já não importa se o Sul à sorte perde o Norte,

ou mesmo se o Pôr-do-sol a Lua tenta e desorienta. 

Busca a chama, repulsa a morte,

clama a Luz que cada noite, o dia, reinventa.

 (Bigorna) XVII6023VI

(Fotografia de Bigorna)

sexta-feira, 16 de junho de 2023

  Lá, longe


Lá, onde o eu dos outros se funde com o eu que só eu posso abraçar e conhecer.

Seremos, sem fomes e sedes, desnudados de tudo o que nos confunde.

Nessa distância imensurável entre nós e o que ninguém de nós conhece,

(Fotografia de Bigorna)
haveremos, no futuro, erguer um templo esculpido no vazio, qual novo útero, templo dos tempos, no qual as paredes serão a Verdadeira Luz e onde seremos, apenas, o nosso próprio interlúdio.

AÍ, transparentes ao olhar mortal, da cor da lucidez da alvorada, poderemos ver-nos, transmutarmo-nos ao som da criação dos universos.

Seremos mais do que qualquer um de nós e os nossos imperfeitos olhares saberão ver. Seremos nós e os nossos próprios mundos inversos.

Lá, longe, onde todo o eu perdido pode enlaçar-se com os horizontes dos meus próprios limites, poderemos saber, de nós, o que só eu vejo de mim, o que tu podes ver de nós, o que jamais saberíamos sermos.

Lá, longe, na distância do tempo, onde jamais estaremos sós e assim morrermos, seremos a nossa essência, sem matéria e sem defeitos.



quinta-feira, 15 de junho de 2023

 

Fotografia de Bigorna 

Vento


Sopra o vento esvoaçando rabugento.

Vai e volta na revolta rodopia e assobiiiiiiiiia

Lá vai ele cheio de pressa meio tonto e regressa.

Alvoroço, este louco não descansa nem um pouco.

Não se cansa nem amansa

Tudo alcança, tudo lança. Doida dança.

Vai e volta na refrega assobiiiiiiia e rodopia!

Que loucura a deste vento

Sem parança nem tento.

Parece sempre irrequieto, qual mosquito no tecto,

Como criança sem tempo.


Bigorna

 A Volúpia de Geia



Geme, em espasmos, Geia,


breves, mas colossais orgasmos.


Preia vai de prazer, em volúpia vestida.


Breves são, milhões de milénios, seus momentos de prazeres fecundos.


De neve se veste, em túnica sensual e ousada, nevando em si, cobrindo de evidência seus mamilos quais picos de montanhas doiradas.


Em si, seus átimos jucundos, tão fugazes se mostram como aos deuses o fumo do vapor dos mais breves segundos.


São sempre breves, os prazeres, para não delongar o eco dos remorsos imundos.


Assim se masturba Gaia ao som compassado e breve do ressoar da trovoada.


Pulsam-lhe, do ventre fecundo, num eflúvio bruto e fremente, seiva ardente e orvalhos frios, mornas trovoadas, troares remorejados do raiar do sol nas tímidas alvoradas.


De tanto gozo Gaia se emprenha sozinha. Cheia segue, de rios de vida, hirsuta de selvas exóticas, molhada de oceanos largos, lagos de lânguida seiva bruta, rumo ao limiar da Via Láctea, como se num prado de flores se deleitasse.


Vulcões, jorrantes, lhe escorrem em lavas de melodiosa maresia.  Transpira odores desejo, só para si, sem sequer querer saber se o universo se inibiria com seu luxurioso cheiro.


Extasiada se deleita em estonteante translação, rodopiante no seu eixo, com leves e mansos ensejos bamboleantes de precessão nas ancas.


Assim se masturba gaia ao som compassado e breve do ressoar da trovoada. E se enche de uma fauna fausta, um lauto enxame de vida por vidas povoada.


Bigorna(XV6023VI)

(Fotografia de Bigorna)

sábado, 10 de junho de 2023

 Não, este não é o país que temos!

Imagem de noticiários de hoje

Vi esta imagem, num noticiário.
Confesso-me angustiado, zangado, preocupado (embora isso não importe quase nada).
Os professores, alguns professores (a notícia dizia que era uma manifestação de professores), decidiram manifestar-se, aproveitando a presença do Primeiro Ministro, empunhando cartazes onde este aparece com “focinho de porco”
Pensei em alguns dos meus professores.
Pensei na minha filha que passou, há poucos anos, pelos bancos da escola.
Pensei nos pais dos alunos todos.
Pensei nos pais daqueles professores e nos pais de outros professores e nos pais dos pais deles.
Pensei nos sindicalistas.
Pensei no Primeiro Ministro.
Pensei naquilo que vulgarmente denominamos “educar pelo exemplo”.
De imediato me veio há memória um pequeno artigo que escrevi há cerca de 15 anos. Não encontro o texto mas lembro-me que versava sobre os noticiários, que na altura mostravam a indignação de alguns pais de alunos. As notícias apoucavam os professores, tomando a vinha pela videira (como é costume). Aos professores eram atribuídos os piores defeitos, sem o mínimo escrúpulo, sem qualquer respeito, nem pelos bons nem pelos menos bons. Nas reportagens era dada a palavra a vários pais que destratavam professores, as mães deles, os avós e até o padre que os tinha baptizado. Pais indignados falavam de incompetência, ignorância e outros mimos, sobre os professores.
Lembro-me de me sentir tocado pela forma como os professores eram tratados.
Lembro-me de terminar o artigo com um pequeno diálogo entre filho e pai (depois de assistirem ao noticiário).
Filho: - Então e agora pai?
Pai: - Agora filho, agora está na hora de ires para a cama, que amanhã vais para a escola.
Passaram 15 anos sobre este artigo que escrevi. Amanhã é Domingo e ninguém vai para a escola. Mas, amanhã, as televisões vão repetir, até à náusea, estas imagens.
Hoje lembro-me da forma como os professores eram e são tratados.
Hoje vejo professores com cartazes destes em punho.
Talvez algum pai e algum filho conversem sobre isto. No dia seguinte será dia de ir para a escola.
Espero que os alunos de hoje sejam melhores do que estes professores e que a nenhum deles ocorra responder a nenhuma contrariedade de nenhum professor com um cartaz de “focinho de porco”.
Fico a pensar nos alunos, nos pais, nos professores, nos sindicalistas e nas notícias. E, há coisas que são um eterno retorno.
Alguns dos alunos que ouviram noticiários, há 15 anos, são hoje professores, sindicalistas, jornalistas, pais… Nós somos nós e as nossas circunstâncias.
Aqui e ali, a esmo disto ou de outros descontentamentos e de outros descontentes, vou ouvindo que há razões e que há reivindicações e que, e sobretudo que: “é o país que temos”.
Não. Este não é o país que temos. Este é apenas parte, da parte mais reles do país maravilhoso, grande, afectuoso, generoso, inteligente, trabalhador, resiliente e com história (com a história que temos e que não podemos apagar, onde se inclui a escravatura, o colonialismo, mas também a navegação, as invenções e os nossos pais, os nossos avós… que são, também, os pais e os pais dos pais dos professores que empunharam cartazes com aquela indignidade).
Viva o 10 de Junho, Viva Portugal. Vivam as pessoas tolerantes. Viva a liberdade.
Este é o país que temos, onde professores se hão de saber retratar. Onde pais haverão de saber explicar aos filhos que podem ir para a escola na Segunda-Feira.
(Bigorna)

sexta-feira, 9 de junho de 2023

OREMUS

 


Lá para o mês Augusto encher-nos-emos de gentes, numa trovoada a que chamam Jornadas Mundiais da Juventude. Uma espécie de Saturnália antecipada. Já nos habituámos um pouco a isto com as festividades carnavalescas a serem empurradas para o Estio porque o frio e a chuva são pouco propícios para o evento (no seu tempo adequado).

Tentativa ou tentação de desenho
 do autor

Conjuntamente com a “evocação” do Conselho de Estado, com as tempestades de incêndios que se esperam e a “balbúrdia” de uns milhões de estrageiros a engrossar o caudal do Tagus com os seus “sanctus dejectus”, constituirão uma tempestade perfeita para a realização de um plebiscito que ponha por terra os restos mortais do governo vigente e instale, no seu lugar, um Falo Falso (que as falsas falas assim têm, para isso, concorrido). Agoirento eu!!!!

Mas, e ainda…

Ouvi, para aí, um versículo que referia a retirada, ocultação, exorcismo, quiçá sublimação, da escultura de João Cutileiro (Aquela que dizem ser uma representação fálica, que eu não conheço, e que a minha mente jamais reconheceria como tal…), do Parque Eduardo VII, em Lisboa, onde (por acaso se vai realizar uma mesa com a presença do Papa e enxames vários à sua volta).

Mas, porque será retirada, ocultada, escondida, a dita escultura? Ela não é Pau, é Pedra. Será partida, será cortada (trasladada se morta)?

Dizem uns que, pode incomodar as orações. Dizem outros que pode distrair os crentes (talvez pouco crentes face ao tamanho da escultura). Dizem outros que não se adequa ao desenho das celebrações. Dizem outros que as celebrações é que não se adequam aquele espaço. Enfim…

Convém não evocar a história nem as estórias, sobre os assuntos em torno da questão (não da escultura, mas sim do local e da cerimónia e da religião e da sua falta de (re)ligação ou mesmo dos excessos das mesmas). Aquele parque não é famoso por se ir rezar nele e os santos que por ele sempre foram caminhantes devem ser todos mártires…

A organização do evento terá vergonha de mostrar a nossa casa?

Teremos assim um complexo de inferioridade tão grande que leve a que tenhamos vergonha do nosso Falo? Se é por ser pequeno, faz-se-lhe um altar maior e sobre o altar um púlpito, e sobre o púlpito coloca-se a dita escultura sobre saltos altos… Não Calem o Falo, deixem que o Falo Fale!

Ocultar a escultura? Vão embrulhar o quê? Com o quê? Vão amarrar um laçarote na base, para disfarçar? E se alguém, no fim da festa, pensa que é uma oferta… Quem se desembrulha com isto?

Por mim, sem sobressaltos,

                e sem carácter pejorativo,

não ofuscando a corrida aos palcos,

                    dêem-lhe uso saudável,

vistam-lhe um preservativo

                               que lhe dará um porte inefável.

 

Tem um senão. Vai avivar a memória sobre os abusos sexuais (lá estou eu a ser agoirento!).

Mas têm uma virtude… Dilata caminho à Eclésia para se modernizar (mas não dilatamos a fé nem o império).

  Pimenta no cu dos outros… (Série)   Inspirado num poste sobre espera. A vida, se a observarmos, de todos os lados, e a conseguirmos ...