sexta-feira, 9 de junho de 2023

 Saudade

(haverá escala de medição da saudade?)

Lancinante golpe no âmago da vontade.
Cascata de lágrimas que pende sobre o vale da esperança.
Cântico lento, sem tempo, sem idade.
Dor sem sítio e sem promessa de mudança.
(Fotografia de Bigorna)
Nó na garganta.
Vazio oco.
Angústia de anta.
Desvario louco.
Ai saudade… Saudade…
Pungente e rude golpe que me invade…
Bigorna (IX6023VI)

quinta-feira, 8 de junho de 2023

 Um Pão

Um pão é um poema.
(Pseudo-desenho de Bigorna)
Um poema traçado à mão,
com solidariedade por lema,
com coração e razão.
E os poemas também são pão,
cozidos no sofrimento,
amassados na solidão,
para nutrir o alento.
Mas se eu te der um poema
não te resolvo a fome,
nem qualquer problema,
de tudo o que te consome.
Dar-te-ei algum pão
e esconderei de ti meu olhar.
Pois que assim requer a razão,
a quem vê dever no dar,
para não envergonhar quem recebe,
nem, a quem pede, humilhar.
Bigorna (VIII6023VI)

quarta-feira, 7 de junho de 2023

 A competitividade entre povos, entre países, entre vizinhos, entre humanos, entre átomos e entre universos, será uma fatalidade inevitável?

(Fotografia de Bigorna)
A Fome
O mar morreu de amor e então secou.
Escorreu, de lágrimas salgadas, o céu cinzento
e o deserto, ao sol ardente, se abrasou.
Desceu um olhar curvado sobre todo o firmamento.
No meio da multidão alguém gritou,
mas ninguém lhe viu, no rosto, o sofrimento.
Até o casario hirto se quedou.
Sentiu vibrar a sua falta de alento,
de mais um coração que sufocou,
de mais um ser batido pelo tempo,
vencido pela fome que o calou.
Bigorna (VII6023VI)

segunda-feira, 5 de junho de 2023

 O Trote das Trotinetas

 

Não somos melhores do que as gerações que nos precedem, mas os que estão a chegar somente vêm de trotinete eléctrica.

Convenhamos, o que estamos e observar é um avanço significativo, mas no caminho do retrocesso.

Sob pretexto de sermos uma civilização mais ecológica, menos poluidora do ambiente, menos ruidosa, menos predadora, agora andamos a trote, não na “volúpia da escapada”, mas sobretudo na “falácia engodada”.

É necessário perceber que a transição energética das trotinetes não se processou do motor de combustão de carburante para o motor de uso de baterias eléctricas. Esta transição processa-se do “à pata” para o comodismo.

Onde, antes íamos a pé ou de bicicleta ou dando impulsos, com uma trotinete convencional, agora estamos a ir de trotineta eléctrica. Contentinhos, cantando e rindo, porque nos disseram que toda a electricidade nasce nas montras dos distribuidores, como as frangas nuas e sem penas nascem nas montras dos supermercados.

(mais uma tentativa, obscena, de desenhar)
Para compensar e complementar o ensejo ecológico, não comemos carnuça, matamos a erva (que não ouvimos mugir nem barregar ou grunhir e por tal não sofre), e os animais que continuem alegres e felizes até que lhe tenhamos enfardado os seus fardos de palha.

Estamos empalhados, é o que é.

Fica a minha sugestão:

Montem-se os comboios, os autocarros e os aviões em trotinetas eléctricas.

Alimentemo-nos de risos e falácias verdes.

Defequem-se larachas esotéricas.

Saciemos de pó e éter as nossas fomes e sedes.

 

E, já agora, ensinem lá coisas importantes aos miúdos. Se fazem favor. Obrigado

sexta-feira, 2 de junho de 2023

 As mulheres de vida fácil…


Ontem foi dia da criança.
Hoje é dia Internacional das Prostitutas.
Quando eramos crianças, todos nos perguntavam o que queríamos ser quando fossemos grandes. Bombeiro; polícia; médico, professor… e um sopro suave envolvia-nos, qual mélica neblina matinal feita de algodão doce e de esperança, até onde oníricos regaços nos conseguissem transportar. Contudo, a memória não me convoca para algum episódio em que uma criança desejasse ser Prostituta.
Só o Jaquim dizia: - A minha tia é substituta. – Sendo que a professora o corrigia: “prostituta, será isso?”
- Não, senhora professora, prostituta é a minha tia, mas ficou doente…
Contudo, ou porque o destino é pérfido ou porque os deuses (se existirem), são eternos brincalhões, sem estatísticas que o comprovem, sem lista de nomes e sem nome no rol de profissões, cá nos vamos prostituindo. Somos mais dos que os números contam.
Sejamos frontais. As beatas que cessem a leitura, os escandalizados que rezem mil terços e os mais pios que evoquem Santa Maria Madalena numa ladainha imensa em que podem também chamar políticos, juízes, padres, bispos e outros que a imaginação não tolha. A prostituição sexual é só a cova, a cloaca mais funda e escondida onde procuramos (com o rabo de fora que é, aqui, um paradoxo tortuoso), esconder um rol de trocas de serviços e conveniências. As outras prostituições não são filhas de “um deus maior”.
O casamento é, ele próprio (volto a esclarecer, todos os leitores são livres de pôr os “cotos” fora desta pauta, parar de ler, e e rasgar o texto em farrapos de protesto), um covil negro de prostituições. Favores sexuais, favores de higiene da casa e arrumações várias, favores afectivos e efectivos, cá vamos cantando e rindo, disfarçando o mau estar e a falsa virgindade púdica.
Homens que se casam para não irem às “putas” (porque, supostamente, fica mais barato), mulheres que se casam para valorizarem os seus produtos e as suas habilidades de cuidadoras do lar… Os móbiles mudam, mas a génese da troca, da retribuição e do negócio é o mesmo (volto a repetir, a leitura é livre, gratuita e, a qualquer momento basta carregar no botão e há uma paragem imediata para os passageiros saírem, até mesmo em andamento). Há casos diferentes? Há? Optimo.
Profissionais de todas as áreas, desde as mais braçais às mais cerebrais, tudo é uma troca. Atribuir mais valor a genitais do que a mãos ou a cérebros, fica com cada um.
(Desenho, miserável, de Bigorna)
Desvalorizar, maltratar, ironizar, apoucar ou cuspir no desejo, no afecto e no prazer é uma forma de escravatura tão reles como qualquer outra. Vivam as prostitutas e os prostitutos. Viva a dignificação da virtude intelectual e humana. Viva a honestidade do pensamento.
A vida fácil é uma parangona que só sossega cérebros pouco esclarecidos. Não raro é uma expressão usada por homens e mulheres, esposas apudoradas, que negam por amor, ao marido, aquilo que eles vão comprar, na porta ao lado, por dinheiro. Lembro-me da mulher do Jaquim, da minha terra, dizer: - Eu sei que o meu Jaquim vai aquelas mulheres de vida fácil. Eu é que não estou para lhe dar sexo porque para mim é um sacrifício.

Mas, para as outras, é fácil...

Bigorna (II6023VI)



quinta-feira, 1 de junho de 2023

(Fotografia de Bigorna)

 Porque hoje é dia das crianças.

Porque hoje o sol não é igual para todos.
Porque penso que o peso nas pernas, que alguns carregam, a que chamamos envelhecimento podem ser as infâncias estragadas... É importante lembrar.

Soneto de Medos de Criança

Chovem estrelas da terra.
Há vendavais na razão.
O siso no peito se encerra.
Serpenteia no sol escuridão.

Do mar brotam gritos aflitos.
Das nuvens se soltam marés.
Morrem há nascença os mitos,
quando o chão se esfuma dos pés.

São assim os dias do escuro,
do breu que cobre a esperança,
da penumbra que faz este muro.

É assim que a vida balança,
entre o sofrimento mais duro,
no medo e na dor da criança!

Bigorna (I6023VI)

quarta-feira, 31 de maio de 2023

 Carta Aberta aos Meus Medos


Hoje acordei com medo de não ser capaz de pintar, por palavras, todo o fumo e as nuvens negras que escorrem pelas minhas paredes de dentro. Esse bafo podre pardo e ardente, que o medo baforou nas minhas entranhas, grosso e fedorento. Esse Pântano pútrido só habitado por seres sem pernas que se arrastam com a língua por terra.

Quero que todas as tuas ameaças tenham medos da minha raiva por ter medo. Hoje vou esganar-te com as próprias mãos esfoladas e fazer o sangue das minhas mãos evaporar em lágrimas de chumbo como se fossem almas penadas. Hoje vou arrancar pelos olhos as raízes das flores ferrugentas dos receios, perseguir todos os possíveis recreios de qualquer réstia de sossego. Vou triturar o teu feitio reles e rabugento. Esganar-te-ei pelo fim do funil do mundo e vou enfiar-te aos pontapés e aos berros em qualquer porta do fundo, esperando que o corredor esteja bem mal cheiroso, sujo e imundo, que os tecto desabem negros e defuntos.

Não voltarei a tecer-te avisos pois que é findo o teu reinado de fezes extintas e pulverizadas ao vento.

Hoje publico, decreto e ratifico que o teu mau odor é, apenas, um pardo remorso sem tempo e sem momento.

Não mais assustarás crianç

(Fotografia de Bigorna)
as nem que elas tenham que nascer cegas, surdas, sem paladar, sem pele e sem olfacto. Não serás nada, nem sombra do vazio nem pó de alinhavos do meu fato. A partir de hoje serás um não vapor inerte da tinta que secou no meu tinteiro.

Disse

 Bigorna (XXXI6023V)

                           

  Pimenta no cu dos outros… (Série)   Inspirado num poste sobre espera. A vida, se a observarmos, de todos os lados, e a conseguirmos ...