domingo, 13 de dezembro de 2020

 

As Vacinas e os Profissionais na Saúde

 

Fui-me habituando a constatar que os profissionais de saúde, não são, por norma, fáceis de tratar, nas suas mazelas físicas e espirituais, e também não são dos que mais aderem a medidas preventivas, no que à sua saúde concerne.

Ilustração de Danielle-Mae (Obrigado)
Não só parecem pouco crentes nos tratamentos, como ainda descuram a preservação da saúde, ou vivem a tremer de coragem quando são convidados a provar os remédios que recomendam.

Um dos campos onde esta realidade é bastante evidente é a vacinação.

Nunca nos distanciamos muito de uma mísera adesão de metade dos profissionais (sem variações significativas para as diferentes classes), e isto tendo em conta que para os mesmos existe disponibilidade para se vacinarem 100%.

Alguns, por altruísmo, outros por medo anunciado, outros por medo escondido, outros por valentia e por considerarem o seu sistema imunitário à prova de qualquer “perdigoto”, mesmo dos mais ranhosos, facto é que as vacinas não lhe “entram”. Acho que alguns aproveitam, apenas, para “virar o bico ao prego”.

Tudo parece bem quando acaba bem. Mas nem sempre será, exactamente assim. Estamos a tornar-nos um sector que emprega a mesma gente envelhecida que tenta tratar. O envelhecimento é tão transversal aos profissionais da saúde quanto à população em geral, e a morte e a doença, tirando algumas diferenças que a assimetria do conhecimento e dos recursos acentuam, também não desviam muito a esta transversalidade.

Gosto de pensar bem dos meus colegas. Acreditem que é verdade. Somos massa de padeiros semelhantes e, se o levedar não estragar demasiado o pão, lá teremos defeitos e virtudes semelhantes.

Gosto, inclusivamente, de pensar que me posso enganar, que tenho dúvidas e que os outros também. Até gosto de um pensamento que se atribui (e fico na dúvida se a Charles Chaplin se a Che Guevara): “Gosto dos meus erros, não quero prescindir da liberdade deliciosa de me enganar.”

Por estes motivos, gostava de propor uma reflexão mais flexível, numa quimera mais solidária, mais orientada para o bem comum.

Muitos profissionais manifestam a sua vontade de adiar a sua adesão à nova vacina para a Covid-19, alegando que a mesma pode não estar ainda devidamente testada. Pois parece me insensato. Ou será avisado, mais do que eu sei! Breeeee que meeedo….

Raciocinemos: grande parte das pessoas que estuda, testa, produz e avalia o efeito das vacinas são profissionais da área da saúde. Será por os conhecermos tão bem, e os acharmos parecidos connosco, que tememos a fineza do seu trabalho? Certamente que não!

Será que as grandes empresas farmacêuticas, que produzem vacinas como outros medicamentos e o fazem com o mesmo zelo e vontade com que os bancos “apalpam e mimam” as notas mais valiosas, estarão na disposição de falhar e “aniquilar” a galinha dos ovos de oiro? Certamente que não!

Se as vacinas resultarem, a prosperidade voltará; poderemos voltar a destapar os nossos cansados “focinhos” (destes fastidiosos farrapos), poderemos voltar a abraçar-nos de costelas e peitos famintos de pele. Vá lá. É que isto, se resultar, só resulta se formos muitos, e muitos a mostrar que vale a pena tentar.

Medo que tenha efeitos indesejáveis. Certamente que terá. Ontem comi feijão e brócolos, não esperava que me causassem flatulência… Mas tem sido difícil… ai tem…

Medo? Medo deveremos ter da doença e dos seus efeitos imprevisíveis e das suas sequelas.

Medo? Medo devo ter de transmitir a doença aos meus mais significativos ou aos mais significativos de alguém.

Medo! Medo deviam ter os que se ofereceram para os testes da primeira etapa… Medo!? Medo devem sentir os doentes quando os convidamos a cooperar com os nossos alunos que vão executar técnicas, NELES, que nunca fizeram noutros… Medo!?

Um pouco de solidariedade impõe-se.

Eu, por mim, logo que possa ter um frasco de vacinas, vou sentar-me, desnudar uma porção, estritamente necessária do meu deltoide, e vou, a tremer de coragem, auto-administrar-me a primeira dose.

Depois, espero não adoecer com covid, espero não transmitir covid, espero que aconteça isto aos milhares de milhões, e espero, espero mesmo, aguardar serenamente a morte, que um dia será tão certa como já ter cometido erros e ter-me enganado.

Não quero e não posso colonizar o teu cérebro com as minhas ideias. Quero apenas ter a certeza que pensas sobre o assunto, e que, na tua enorme generosidade, seja contigo, seja com os outros ou com os dois, se encontrares uma razão verdadeiramente válida para não nos vacinarmos, que a partilhes urgentemente connosco.

                (Escrito sob um céu de quase Inverno, nas margens do quieto e quase morto Cértima, em completo desacordo com acordo vigente) Bigorna, 2020

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Que hora é esta?!?

 

O Jaquim, da minha terra, confessou-me andar um pouco sem saber das horas. Mais do que isso, lamentava-se ele, entre um trago de cachaça e um cofiar das barbas argênteas:

Ilustração de Danielle-Mae (Obrigado)
- Sabes Bigorna… sinto-me estuprado no cérebro…

E lá me contou ele, com os cantos da boca para baixo e os sobrolhos enrugados como
papel que se lança ao lixo:

- Primeiro vieram uns, lá das vacinas do vírus da Covid, dizer que a eficácia da sua poção mágica era de 90%. Depois, vieram outros e logo se apressaram a dizer que a deles era melhor, e mais isto, e mais aquilo, e que chegava aos 95%.

- E isso não são boas notícias Jaquim? – Perguntei-lhe eu encavacado.

- Talvez, se isso não tivesse feito com que os primeiros emendassem a mão, para dizerem que a sua vacina também preveniria 95% das infecções. Assim, como quem tira um gato de dentro de uma cartola. Sim, que já se vê que aqui anda gato escondido com o rabo de fora.

E como se não bastasse, Bigorna, veio um terceiro feiticeiro, que tinha anunciado uns míseros 70% de eficácia, e diz que se enganou a testar a poção mágica, e que depois de mais uma colher bem cheia do postemeiro, a eficácia se levantava para os 90%. Espero que tenha explicado isso às cobaias.

- Pois. Até dá vontade de Orar. Ora merda para isto tudo! Perdoa-me lá Jaquim, a veemência da minha oração… Não tarda, se algum se arvora em ter eficácia de 100%, LOGO OUTROS VIRÃO DIZER QUE A VACINA DELES CURA TUDO… E TUDO E TUDO… E pena será que não cure a intrujice e a mentira e a avareza e… e a injustiça e a fome e falta que faz a poesia…

- É disso que te estou a falar, Bigorna. Até me sinto fora do tempo e a recordar aquela vez em que me cruzei com a Maria Xarope de Giesta, quando ela vinha das terras (de cavar, mondar, regar e chorar), e eu lhe perguntei se ela tinha horas.

- E então, Jaquim, que te respondeu ela?

- Disse-me, na sua simplicidade do tamanho do mundo: “Não tenho relógio Jaquim, costumo ouvir o sino da torre, e parece, parece, Jaquim, que me deram duas, ali atrás da mata.”

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Tanta pressa… 


Ilustração de Danielle-Mae. Obrigado.
Gosto das pessoas que se detêm, a olhar para os pequenos pormenores, como se elas próprias os quisessem tornar seus.


Não gosto da voragem das legendas dos filmes. Sou lento, não nasci no lado inteligente da família e, quando não consigo ler, deixo de entender a história. 
Acabo por desistir de ver o filme ou, tal como na vida, quando as pessoas vão demasiado rápido, acabo por não as conseguir saborear, perco-lhes o interesse, ficam apenas cenas de filme, com ou sem cor, com ou sem acção, com ou sem sal, apenas cenas de filme.

 Há poucos dias, no vagar de que gosto, em tempo de férias e enquanto o vírus corria atrás das pessoas e as pessoas atrás de notícias dele, fiz uma visita guiada ao magnífico Museu Ferroviário, em Entroncamento. Fica a recomendação e a nota do que me fascinou e facilitou na visita, pessoal apaixonado pela lenta história da evolução da ferrovia. Obrigado.

Entre muitas e muitas histórias que fomos ouvindo e partilhando, entre as curiosidades da evolução tecnológica e outras, a viagem terminou com a apresentação de um pequeno vídeo que se iniciava à velocidade das primeiras locomotivas a vapor, e terminava à velocidade inimaginável dos comboios que levitam nas linhas sob influência de campos magnéticos, a 600 quilómetros por hora. Até as datas e as legendas corriam mais do que os meus neurónios podiam ler.

Foi durante esse espanto, esse instante rápido, quiçá, pela sua rapidez, “que meus nervos se enervaram” e me veio à memória uma estória contada por um vetusto contador de estórias.

Por ter, quase certo, fundo de verdade, e por ter contexto geográfico concreto, vou omitir esse contexto e pensar que podia ter acontecido no teu próprio lugarejo, algures no polo mais a sul das sextas-feiras das nossas vidas, onde o tempo não conta, onde a pressa é só de continuar a existir e a conhecer coisas belas.

Num tempo em que nas aldeias, as bicicletas, sendo uma raridade, constituíam motivo de ir ao largo do coreto para vê-las passar, um certo remediado homem encomendou uma bicicleta para o filho: 

- Pode ser de cor preta, mas não assim muito preta, um preto que seja clarinho…

Chegada a bicicleta à aldeia, logo o rapaz se jungiu nela e foi dar seu passeio. Quando ao fim do dia voltou para casa, o pai, que o esperava ansioso, perguntou-lhe:

 - Então filho, gostaste de andar de bicicleta? 

- Assim assim, senhor meu pai… - Respondeu-lhe, algo desiludido o filho. – A gente vai, meu pai, por esse mundo que deus tem, a passear, e a modos que se vê tudo muito depressa…

quinta-feira, 16 de julho de 2020


Se o arroz falasse…

Há dias, em poucos minutos, sem fato de astronauta nem relógios esquisitos, viajei no tempo, sem outra máquina que a fantástica, com a qual todos estamos mais ou menos apetrechados: a memória.
Devia eu andar pelos meus cinco pequenos e magros anitos. Manhã bem cedo para o campo, verão de calores e vapores de aventura, que pelas 11 da matina já o granito não deixa a gente andar descalços e as batatas, arrancadas à terra, rapidamente cozem ao sol.
Ilustração de Danielle-Mae (Obrigado)
Corri o regato que persistia ainda, da nascente natural, como um fio que emagrecia a cada dia de Estio. Vi os girinos que, cada vez mais próximos do poço onde culminava o regato, mostravam toda a sua aproximação a rãs com cauda. Subi a todas as árvores que consegui. Olhei as flores silvestres como se elas me beijassem e me anunciassem futuros amores e beijos de seda. As papoilas gritavam como sereias. As dedaleiras davam o seu pólen aos abelhões. Os pássaros desafiavam-se em odes à vida, banhada pelo sol, orvalhada pela noite.
Se isto não era o paraíso, pelo menos ganhava, aos pontos, às descrições inflamadas de qualquer inferno. Pobre diabo, o Mafarrico.
Regressei a casa. Pelo caminho ainda apanhei os pinhões, debaixo das copas redondas dos pinheiros mansos. Que árvores belas são os pinheiros mansos, e que delícia comer os pinhões. Suporta-se até o risco de um dedo com a unha preta, pelo descuido da pancada pouco acertada, com a pedra, para abri-los.
Chegado a casa, minha mãe fez arroz. Arroz de arroz, mesmo. Minha mãe ainda faz arroz com um gosto… deve saber a arroz de mãe, penso eu. Um pouco de tomate, azeite, cebola refogada… sei lá. Tento sempre, mas nunca é bem aquilo.
A cozinha, na altura era grande, a meus olhos de pequenos cinco anitos. Já foi ampliada para mais do dobro e ainda hoje é pequena. O chão era de cimento. Muito liso, brilhante.
No fogão, o arroz cheirava a arroz feito pela minha mãe. Fora, as cigarras trinavam as suas guitarras. Acho que o faziam regaladas com o cheirinho do arroz acabado de fazer.
Minha mãe pegou no tacho para o colocar em cima da mesa. Visto em câmara lenta e a salivar de vontade de o provar, vi uma das asas do tacho desprender-se do tacho, como se o tacho fugisse dela e se quisesse, enciumado, atirar ao chão, por birra. E não é que atirou mesmo!
Minha mãe soltou um daqueles raros palavrões, que tomam outra vida com sotaque Beirão Serrano, foi buscar uma colher grande e apanhou até ao último grão, para o tacho, ferido no orgulho, novamente cheio, e agora amputado de uma asa.
Comemos que regalou. Alguns devem recordar-se que o arroz não era branco branqueado e sem graça como o de hoje. O arroz tinha, amiúde, uns risquinhos avermelhados… vestígios de casca. Que delícia. Não sobrou arroz. Até um pouco de arroz esturrado, que o tacho não tinha conseguido rejeitar, marchou. Gosto do arroz quando esturra, é como a intensidade dos sentimentos… é até queimar.
Esse tacho, maroto e traidor, condenámo-lo, “ipso facto”, a ser reservatório da comida do cão, sem que isso tenha sido a sua única pena. Em cumulo jurídico, o destino votou-o a lixo sem glória.
Num dia de entrudo, de uns anos mais tarde, farrusco, frio e aspergido por farrapos de neve, estando a aquecer-me à lareira da mesma grande e hoje minúscula cozinha, minha mãe convocou-me para levar uns restos de comida ao canito, no condenado tacho sem asa. Levantei-me e, uma tontura, por provável hipotensão ortostática, estatelei-me em cima do condenado, espalmei-o e saí ileso. Pequeno, mas rijo. Se fosse agora ainda podia seguir o caminho da reciclagem (o tacho). Naquele tempo foi dado à terra que o deve, ainda, andar a mastigar.
Regressei na máquina do tempo, de um tempo em que ainda só existia o Paraíso e eu era eu e a terra misturada nos pés nus e descalços. Aterrei na minha vida, a lembrar um belíssimo texto de José Rodrigues Migueis, Arroz do Céu. E pensei: Ai se o arroz falasse.

segunda-feira, 29 de junho de 2020


Plataforma de Acoplagem Intergeracional


Ilustração de Danielle-Mae (Obrigado)
Há marcas que nos marcam de e para sempre. Uma dessas marcas é o umbigo, esquecido, no meio da pança ou na planura de uma barriga virgem e ávida de mimo. Uma depressão de modelo tão variável que pode mesmo apresentar-se como um vale invertido. Modelos variados, quase comparável a um dermatóglifo.
Muitas vezes depreciado, muitas vezes alvo de julgamentos egoístas e de índole egocentrista, não escapa a expressões como: - “vives a olhar para o teu umbigo”; - “tens um umbigo muito grande”.
Engraçado, poderíamos dar-lhe um valor mais introspectivo. Por ali entrou o nosso sustento, a nossa garantia de vida, durante nove meses (na maioria de todos nós). Por ali saiu, também, a informação para o corpo de nossas mães: - continua a segurar-me aqui dentro, ainda não sou capaz sozinho e lá fora, onde o mundo é duro, frio e cheio de ar.
Olhamos para o nosso umbigo, com ar de culpa e remorso, talvez por falta de sermos solidários e não por falta de o vermos como uma das maiores provas de solidariedade. Olhamos para esta cicatriz, indelével e ancestral e não lhe damos um ar leve, moderno, desempoeirado, de “Plataforma de Acoplagem Intergeracional”.
Agregados a uma nave Mãe, com a qual viajamos no tempo e no espaço, algures num universo de intimidades, nascemos acoplados por essa plataforma, por onde se trocaram nutrientes e informações químicas (e outras desconhecidas ou inimagináveis preciosidades). E, aquilo que nos ocorre é desdenhar de tão gostosa marca de união e continuidade, em vez de a mimarmos como se fosse a porta do buraco negro do nosso verdadeiro universo interior.
Talvez, alguns, mais cibernéticos, invejosos da capacidade que outros têm de serem felizes, preferissem nascer com uma ficha USB ao invés de um misterioso umbigo de pele. E até seria mais fácil controlar a vida dos outros. Não haveria protecção de dados que nos salvasse. Bastava ligar ao PC e todas as fomes e sedes, todas as emoções e desconsolos, apareceriam escarrapachados, num ecrã pasmado.
Fiquem de bem com os vossos umbigos e não tenham zelotipia de qualquer felicidade que seja.

quarta-feira, 24 de junho de 2020


Chupetas e Chupistas

Porquê escrever sobre chupetas?
E porque não?
Ilustração de Danielle-Mae (Obrigado)

Estamos na era espacial, a lançar sondas para o futuro. Os nossos filhos são essas deliciosas sondas para o futuro. Parece-me importante que o façamos com o máximo cuidado. E não se trata, apenas, de os fazer bem feitos. Atenção aos acabamentos!
Todos temos alguma responsabilidade nisso e convém que tenhamos, disso, consciência.
Coisas tão simples, como algumas observações, lançadas quais dejecções ao vento, podem borrar a escrita toda, de crianças e dos seus, nossos próximos, em especial quando os próximos estão muito próximos.

Inúmeras são as vezes que me deparo com observações, a propósito do uso de chupeta, e que me fazem rasgar as vestes da indignação, tais como:

            - “Ainda usas chupeta!?”
            - “Não tens vergonha de usar chupeta!?”
            - “Que menino tão feio a usar chupeta…”
            - “Tem que lhe tirar a chupeta, mamã, vai estragar-lhe os dentinhos!!!”
            - “Fica tão feio… de chupeta”

E poderia ficar, aqui, a relatar os impropérios, diversos e multicoloridos, usados nestas circunstâncias. Não raro, estas barbaridades, terminam numa das mais sinceras e simples formas de nos perdoarmos e percebermos insatisfações.
 - “Olha, dás-me a tua chupeta?
Se eu fosse criança apetecia-me perguntar:
- Porquê (tadinho), não tens tostão para comprares uma para ti?

Recomendação simples. Se não tem nada de bom para dizer, fique calado.

É, por isto, que avento algumas hipóteses para o uso de chupeta. Talvez tendamos a usar ou abusar da chupeta por ela constituir uma compensação para a nossa ansiedade. Daí que (e fico feliz por perceber a presença de ansiedade nas pessoas), face a problemas difíceis de solver, as pessoas partam para a ignorância, ou para o raio que as parta. Este diálogo, inicialmente ofensivo e insultuoso, com os bebés, afinal, redunda num desesperado pedido de ajuda aos próprios bebés.
– Se o bebé nos desse, a sua chupeta, ficaríamos mais tranquilos, mesmo não conseguindo uma solução para o problema. Usávamos a chupeta e tudo passava.

Aparentemente, a solução de um problema tão complexo como o uso da chupeta, prolongado no tempo, perturbador da nossa imagem, estará no “não início” do seu uso. Isso significa que todo o problema estaria sanado, se nunca colocássemos uma chupeta na boca de um bebé. Mas a mesma facilidade, com que afirmamos tal solução, coincide e esbarra na mesma facilidade com a qual somos confrontados com opiniões em favor do seu uso (talvez pouco científicas ou a pedir ser teses de mestrados ou doutoramentos). Em chupetas?!, ainda se fora em Chupistas!!!
Porque estimulam a sucção, porque diminuem as cólicas, porque as fábricas as fabricam e as farmácias as vendem, porque são um presente fácil, porque acalmam os bebés, porque acalmam os pais, etc.

Assim sendo, enquanto não conseguirmos evitar o seu início de uso, se isso for conveniente e correcto, interessam-nos outras questões que julgo importantes, para a nossa intranquilidade, e sob pena de, para combate da nossa insatisfação, voltarmos todos a usar as chupetas que pedimos, encarecidamente, aos bebés que enxovalhamos a propósito do dito apêndice sugável.
Pela minha parte já tive a minha dose, fui fumador durante 15 longos anos… a ansiedade, não voltarei a curá-la, com chupetas.

Aquilo que gostaria de ver resolvido é o abandono de observações que apenas constrangem, as crianças, que usam chupeta, e os pais, que se veem a braços com um problema para o qual, inúmeras vezes, não veem como um problema ou não vislumbram maneira de ver resoluto.

Sabemos que, o uso de chupeta, remonta a épocas muito remotas e que mesmo antes disso, já os bebés colocariam o dedo nas boquitas gulosas (portas de entrada de muitas satisfações). Sabemos, até, que, os nossos antepassados improvisavam chupetas a partir de rolhas (vindo a constatar que os resíduos dos deliciosos néctares báquicos, que antes rolhavam, surtiam verdadeiros milagres sob o choro incomodativo dos bebés). Sabemos que o uso de açúcares e outras guloseimas também surtia efeitos semelhantes.
Mas será que, efectivamente, o uso do dedo na boca, por parte dos bebés, é motivo para o substituirmos, compulsivamente, por chupetas?
Retirando a questão da higiene, que ainda assim não sei se será maior nas chupetas ou, muito antes pelo contrário (uma vez que na pele existe uma flora saprófita que tende a controlar a patogénica), nos dedos, não me parece que o uso do dedo deva ser substituído pela borracha.
Para além das vantagens do dedo, em relação à borracha, ou do moderno e carcinogénico silicone, há ainda que contar com o próprio controlo de uso e desuso exercido pelo dono do dedo. O bebé usa, muitas vezes, os dois meios para controlar as suas necessidades, e faz isso a seu belo prazer. Não lhe amputem a liberdade deliciosa de usar o dedo!

Há também quem atribua, ao uso da chupeta, um nexo de causalidade com o insucesso da amamentação, argumentando que a dinâmica da sucção, quando na presença de chupetas e/ou tetinas, fica alterada e pode mesmo tornar-se ineficaz face ao mamilo materno. Tal poderá acontecer em alguns casos, nunca na maioria ou mesmo perto dela, visto que muitos bebés, que usam ou usaram chupetas e biberões e dedos, continuam adeptos incondicionais da mama. E de que forma!

Retirando a questão, do início ou não do uso da chupeta, que sabemos ser uma forma de solucionar a sua dependência futura, e que sabemos também não ser indispensável à tranquilidade dos bebés e dos pais, irão permanecem-nos os problemas dos que usando ou não chupeta vão usar ou abusar do uso dela, do dedo ou de ambos, até serem confrontados com as perguntas infantis, insultuosas, e sem resultados além do aumento da ansiedade de todos os intervenientes no problema.
O que fazer então?

Em primeiro lugar, há que considerar que, muito provavelmente (a carecer de comprovação por estudos científicos estatístico- manipuláveis ou estatístico-adulteráveis), o uso tardio de chupeta ou do dedo, bem como o seu abuso (entenda-se necessidade sem a qual a criança não dorme ou não deixa ninguém dormir ou permanece com ela grande parte do tempo ou possui já marcas evidentes de deformação da arcada dentária), tem por base a existência de outras perturbações do comportamento da criança, dos pais, do ambiente familiar, social, etc.
É, esta perturbação, que leva a comportamentos de compensação e de (in)segurança transferida para objectos, que deve, isso sim, merecer a nossa atenção. Resolvidas as perturbações do sono, da segurança ou da ansiedade, que rodeiam a criança ou a família, estaremos em condições de poder retirar ou não (pesando sempre o risco benefício), a chupeta (porque o dedo não tem solução tão fácil quanto a remoção ou afastamento). O dedo está sempre à mão (quem diria).
Há que definir, em parceria e diálogo com os pais e a criança, quando é que a chupeta está a ser uma perturbação com necessidades de solução e intervenção. Não me parece fácil que haja consensos para uma idade em que a criança deva ser afastada da chupeta que, muitas vezes, foi obrigada a usar.
Mas devemos, também, ter um papel de incentivo às atitudes firmes dos pais e mães que, desde o advento das intervenções psicoterapêuticas, vivem traumatizadas com a eminência do trauma do “obrigar as crianças”. Se as crianças podem ficar com traumas por terem sido “obrigadas”, então nada se faz para as obrigar a o que quer que seja. Acontece que, pouco se pensa e reflecte, sobre a existência do trauma da falta de regras e firmeza (que conferem segurança às crianças).
Será sempre importante estarmos atentos à substituição da chupeta por outras tendências repetitivas. E as piores podem ser aquelas que são vividas no silêncio e ocultação. Mesmo quando não existe o uso de chupetas ou dedos, podem existir comportamentos que evidenciem insegurança, ansiedade e/ou outros problemas. Tendemos a achar que o bonequinho ou a fralda, que a criança nunca abandona, são muito engraçados (desgraçados, desengraçados, e pútridos, alguns), mas devemos estar atentos ao porquê do seu uso. São, a miude, substituições.

Talvez, anos mais tarde, muitas destas dependências, sejam substituídas por alguns químicos de uso lícito ou não (com licença médica – vulgo receituário – ou não).
Estou convicto de que um aumento do aporte de pele, de carinho, de afecto e ternura, podem ser uma boa terapia para os bebés e crianças que sofrem de “chupetodependência” ou de outras dependências. Mas estou também convicto de que uma reflexão carinhosa, generosa, ternurenta, sobre as nossas abordagens às chupetas dos bebes e das mães dos bebés pode também ser muito útil.
E já agora, disse-me a ternura e a reflexão empenhadas, sobre o assunto, que não adianta intervir sem indicar caminhos e soluções.
Por favor, não diga:

            - “Ainda usas chupeta!?”
            - “Não tens vergonha de usar chupeta!?”
            - “Que menino tão feio a usar chupeta…”
            - “Tem que lhe tirar a chupeta, vai estragar-lhe os dentinhos!!!”

E se se sente triste, abandonado, ou abandonada, se necessitar compensar-se, não peça a chupeta, já usada, de um bebé.
Tenha coragem e compre qualquer coisa para resolver o problema.

Apenas mais uma nota.
Evite o uso desses cadeados que seguram as chupetas ao peito dos bebés, como se quisessem agrilhoar, para sempre, o coração dos bebés, a uma chupeta de borracha.
Longe da vista, longe do coração. Se a criança tem, sempre que percebe que o chão é duro, e que a luta com a gravidade é um longo caminho, uma chupeta para calar as suas frustrações, não vai haver afecto que salve a situação, nunca. Deixe chorar, as lágrimas são para lavar a alma…
Agora uma chupeta para acalmar, logo uma chupeta para dormir, amanhã um psicotrópico qualquer para acalmar a ansiedade…
E colinho… de pai e de mãe… se de boa qualidade e sem picos…. Aaahhh! É tão bom!

Se deixamos e incentivamos a chupar em chupetas, ainda vamos acabar por criar sondas, para o futuro, que não passarão de “Chupistas”.

sábado, 20 de junho de 2020


Fake News?

Hoje acordei com a falsidade como almofada e com o berço como fornicação. Senti-me traído, como se sempre o tivesse sido, como se nunca o tivesse sabido, como se fosse o último a saber.
As notícias deixam-me estuprado pela subtileza da falta de verdades.
Ontem morreu o primeiro médico, em Portugal, 68 anos (notícia triste), vítima de Covid-19.
Ontem, li parangonas, sobre o discurso do nosso Primeiro Ministro, a propósito da realização de finais de competições europeias, em Portugal, associadas a uma frase bombástica “São uma prenda para os profissionais de saúde”. Pela minha parte, pensei, vai-me ficar caro, ainda devo a conta das palmas que a populaça me bateu, sem eu ter pedido, e já estão a presentear-me novamente... Afinal o discurso estava descontextualizado. Que estranho!
Hoje acordei com a notícia de que o Twitter assinalou, pela primeira vez, uma notícia de trump, como “manipulação dos media”. Fiquei chocado. Nem estava à espera de que o sr. Trump manipulasse os media, nem de que o twitter assinalasse, assim, tamanha barbaridade.
Fui ver os números sobre Covid-19, pesquisa sapo, em Portugal, e verifiquei que há 38.464 pessoas infectadas e 1.527 mortos.
Disto resulta que 4% das infecções,na população, em geral, resultou em morte.
Verifiquei que há 3.681 profissionais de saúde infectados, dos quais 516 são médicos, 1.527 são enfermeiros (três vezes mais e em contraciclo com os restantes países do mundo, onde a lógica é de mais médicos infectados do que enfermeiros), ainda assim, e nas notícias, citados em segundo lugar, todos sabemos que no dicionário a letra “m” surge antes da letra “e” (nalgumas palavras), e mais 1.681 outros profissionais.
De outras mortes, de outros profissionais, nem pálida nota. Ainda bem que não morreu mais ninguém. No cemitério teria de haver placas a dizer “aqui jaz outro profissional”.
Mas voltando à notícia, da morte de um médico,esta poderia ser bombástica. Morreu um médico, de entre os 516 infectados. Também estou triste. A morte, sobretudo contrariada, essencialmente contrariado, chateia-me muito.
Acontece, porem,  que deve faltar aqui qualquer outro foco de atenção ou talvez alguns dados (não me passa pela ideia de que com qualquer intenção). Se a morte atingiu 4% dos infectados (na população, em geral) e apenas morreu 1 médico em 516, são 0,2% (na população de médicos). Morrem 20 vezes menos médicos (infectados), por Covid-19, do que cidadãos em geral. Gente rija, sem dúvida. Mas, se considerarmos que a notícia é correcta, ainda pode ser mais surpreendente. No total, se estão 3.681 profissionais infectados e faleceu 1, morreram 0,03% dos profissionais infectados. Os médicos deixam de ser gente tão rija, incomensuravelmente importantes, não reste dúvida, mas muito mais vulnerável do que a restante ralé.
Não me batam palmas, por favor, que ainda não paguei as anteriores.

Fuck News… era assim que eu pediria para renomear a coisa.

  Pimenta no cu dos outros… (Série)   Inspirado num poste sobre espera. A vida, se a observarmos, de todos os lados, e a conseguirmos ...